Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de novembro de 2016

Nossas vivências em Cuba

Ontem, aos 90 anos, morreu Fidel Castro. Lembrei-me então de tudo que vivi em Cuba, em 2000, junto de amigas queridas num estágio educacional que participamos. Lembrei-me de todas as delícias e desafios dessa viagem, das certezas e incertezas que desde aquela época nos povoam. Lembrei-me do texto abaixo que fizemos juntas (eu, Marili Dias, Andrea Almeida, Edna Teles e Isis Longo), que conta um pouco do que vivemos durante nossa viagem, e das reflexões que continuaram e resultaram no livro "Imagens de Cuba, a esperança na esquina do mundo", Marcos Ferreira Santos (org.), Editora Zouk, 2002.





Nossa vivência em Cuba

Antes de entrarmos nos detalhes da viagem é importante que vocês, leitores e leitoras, saibam que o grupo maior com o qual viajamos constituía-se de 26 pessoas de diferentes áreas: pedagogia, psicologia, história, geografia, filosofia, professores e professoras universitários, entre outras áreas. O programa era oficial e durante duas semanas com visitas programadas em diferentes instituições educacionais e, também, em um hospital psiquiátrico.

A terceira semana também era para ficarmos em Havana no instituto pedagógico onde estávamos desde o primeiro dia. Mas nós, Edna, Isis, Marili, Andrea e Juliana cancelamos a estada, pois achamos que os discursos das instituições as quais visitamos estavam muito "oficiais".

Tivemos algumas conversas e decidimos que se quiséssemos, realmente, conhecer o povo cubano, sua cultura, como vivem, o que pensam a respeito das coisas de seu país, teríamos que ir para as ruas e para as casas dos cubanos, transitar pelo cotidiano do povo. Afinal, as transgressões também possuem seu valor pedagógico!

Atenção, queridos leitores e queridas leitoras, convidamos vocês agora para uma viagem por cenas "muy esquisitas" do cotidiano da ilha de Fidel vividas pelo grupo durante quatro semanas.

Vocês conseguem imaginar o que é participar de uma passeata em Cuba? Nós também não, até o dia em que nos deparamos com uma convocação nacional para a marcha contra "la ley asesina".

Diz a lenda... quem quem chega "nadando" de Cuba aos Estados Unidos tem garantido um visto permanente, casa, comida, emprego, dólares e todas as "benesses" do capitalismo. Imaginem o alvoroço que tal estímulo causa, principalmente nos jovens. Pois é. Precisamente no dia em que estávamos lá, dois jovens morreram afogados tentando tal façanha.

Por conta disso o comandante Fidel convocou todo o povo cubano para ir às ruas contestar contra tal fato. Nós, professoras brasileiras sedentas por passeatas, afinal, estávamos em férias, não pudemos resistir em participar de tal evento: a primeira passeata do milênio em Cuba, e o que é melhor?... contra os Estados Unidos. 

Tudo nesse dia estava fechado porque era um dia de paralisação nacional. Qual não foi a nossa surpresa ao ver milhares de pessoas (crianças, jovens, idosos, soldados...) num fluxo contínuo de uma caminhada por todos o trajeto do Malecón sem que houvesse um carro de som ou discursos de lideranças. Havia palavras de ordem no decorrer de toda passeata como "abajo la ley asesina!", agitação de bandeiras nacionais e um sentimento de dever cumprido do povo que estava presente.

E em se tratando de povo... "eta" povo caliente e animado!

Uma das coisas mais marcantes para "nosotras", em toda a nossa passagem por Cuba, foi a identidade dos costumes latinos: a dança, a sensualidade, o carinho, a hospitalidade, a curiosidade, o gingado e... pasmem:... as novelas da Globo!!!!!!!

Imaginem vocês que as novelas da Rede Globo são um grande sucesso entre cubanos e cubanas. As pessoas nos perguntavam sobre "el Rey de Ganado". Como já sabíamos o que aconteceria no final da novela que estava sendo transmitida na época, tal final tornou-se para nós objeto de barganha em muitas barracas de feiras de artesanato. 

A pergunta que não quer calar entre nós é: como uma sociedade que atingiu um nível tão alto de instrução e educação por meio de um governo que prima por valores de igualdade e solidariedade vive essa contradição? Como este mesmo governo crítico em relação ao capitalismo pode transmitir em rede nacional essa programação tão capitalista como as novelas brasileiras?

E o que é mais intrigante: como o povo se fascina tanto por elas! Chegam a ponto de acompanhar por um ano a trama das novelas, pois elas são transmitidas, curiosamente, em dias alternado: "dia si, dia no".

Vai entender, né!? Será que Freud explica? Ou Che?

E, mais do que uma contradição, imaginem vocês o que é estar em um país com valores e convicções tão fortes quanto a igualdade de classe social, a importância dos heróis nacionais, da revolução, da consciência das dificuldades causadas pelo embargo econômico, tudo isso presente no imaginário e no discurso de todo cubano que encontramos e tivemos a oportunidade de conversar; e ao mesmo tempo, encontrarmos em uma mesma cidade, como La Havana, por exemplo, distorções sociais como no Brasil (em menores proporções, é claro!) pois o bairro de Miramar em La Havana se equipara ao bairro do Morumbi em São Paulo (alta classe) e o bairro de Cotorro equivaleria ao Capão Redondo (periferia).

Seguindo "a linha da contradição" o que quer dizer da estratégia econômica de fomentar o turismo capitalista de Varadero com o objetivo dos "bienvenidos dolares"? O Turismo, ao mesmo tempo, que alimenta a economia do país provoca uma degradação predatória dos costumes, dos próprios valores que lhe são mais caros. Tal prática promove a demanda de um "mercado par alelo" e mistifica a ideia de felicidade que fica associada ao ter dinheiro para concretizar o sonho de consumismo.

Prestem atenção, caros leitores e leitoras, pois dissemos CON-SU-MIS-MO, e não "comunismo".

Mas, se lhes perguntarem: em qual país existe acesso e permanência na Educação em todos os níveis de ensino com a mesma qualidade para todos? Em qual país a saúde não é uma mercadoria e é pública e gratuita para todos? Em qual país todas as pessoas têm uma moradia e dignidade de sobrevivência? Para nós a resposta é Cuba!

Tivemos a oportunidade de conhecer muitas escolas dos diversos níveis e modalidades de ensino, entre elas, escola rural, escolas especiais (dificuldade de aprendizagem, conduta, deficiências), escolas profissionalizantes, universidades, círculos infantis, escolas politécnicas, escolas de formação de professores e atividades educativas no Hospital Psiquiátrico de Havana.

Para nós, enquanto reflexão de grupo, a universalização da Educação é um valor, bem como, o caráter dado ao processo de formação de professores que se baseia nos ideias humanistas, na perspectiva do engajamento político-ideológico dos educadores e educadoras e na sua consciência histórica, isso tudo contemplado no sistema educacional cubano.

Nós, como educadoras, tivemos experiências tanto positivas quanto negativas ao conhecermos a Educação em Cuba, e vocês leitores e leitoras farão agora seus próprios exercícios de análise e reflexão para tirar suas próprias conclusões.

O que você acha de uma criança indisciplinada em sala de aula ter para ela uma escola, especialmente, para aprender regras de conduta? O que você acha de uma criança com dificuldades de aprendizagem ter uma escola, especialmente, para que essas dificuldades sejam trabalhadas? O que você acha das pessoas com tratamento psiquiátrico terem como prescrição médica aulas de teatro, artesanato, música, danças e esportes? O que você acha do currículo oficial conter práticas como agricultura?

Essas e muitas outras questões permearam e permeiam as nossas discussões sobre Cuba.

Assim, ao chegarmos ao Brasil começamos a conversar sobre a importância de socializarmos as informações e as pesquisas que cada uma de nós realizou. Pensamos em organizar um grupo de estudos sobre educação comparada e achamos pertinente organizar o material de que dispúnhamos (vídeos, fotos, textos, anotações de conferências, entre outras coisas) a fim de abrir um espaço de estudos e discussão.

Foi com esse intuito que escrevemos o projeto "Imagens de Cuba" (CICE/FCEx/USP), que o querido professor Marcos Ferreira, um "manate convicto da cultura lationamericana" aceitou orientar e que, portanto, ao ser aprovado, agora ganha corpo no conjunto de atividades do Ciclo de Debates "Imagens de Cuba" (2002), vídeo, exposição e o presente livro.

É o início de uma longa etapa, e esse é um pedaço de objetivo que começa a ser realizado. Vocês, queridos leitor e leitora, estão convidados a fazer parte desse grupo de pesquisa e reflexão permanente sobre Cuba.

Como dizia Che Guevara, "Hasta Siempre!"


Hoje, relendo esse texto me aproximo muito dessa época, meus 20 anos, e de meu grande entusiasmo em transformar o mundo e de uma tomada de consciência maior a respeito de como todas as coisas são cheias de beleza e de inevitáveis contradições. Uma época em que era tão menina e tão mulher. Hoje, continuo a mesma, em parte; em outra mudei bastante, naturalmente.

Que bom que vivi essa experiência com muita intensidade para ganhar maior dimensão de que as coisas são muito complexas, e por isso mesmo não devem ser julgadas precipitadamente. Lá, vi que a revolução cubana tem uma importância grande na vida daquela população como na de outros países, por diversas razões, e que ainda assim ela foi conservadora em vários aspectos como com a liberdade dos homossexuais. Nessa experiência, ganhei maior noção de que as relações humanas e tudo o que construímos a partir delas são o que importam. Lá, fiz grandes amigos, mais que isso, desenvolvi empatia para com o outro, tão diferente e tão semelhante de mim. A partir dela, desenvolvi maior serenidade diante da vida, de que escolho meu papel no mundo, ainda que as coisas não estejam o tempo todo ao meu controle. Lá, percebi o quanto a liberdade é preciosa e todos merecem tê-la, e por isso torci para que os cubanos e cubanas pudessem avançar nesse sentido - e nós também, pois compreendi que até quem a tem como direito assegurado, nem sempre a exerce plenamente. E acima de tudo, ainda que tenha mudado a minha opinião sobre um monte de assunto (ainda bem! Pois estou viva, em movimento!), mantive minha esperança de que um mundo mais humano - para todos, é possível.

Marili (em memória), Edna querida, Isis sumida e Andrea amada, saudades gigante! Que as nossas conquistas sejam sempre as mais belas e mais justas, como me escreveu um dia a Isis!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Escola sem partido - vote contra

Esse projeto que tramita por aí "Escola sem partido" encabeçado pelo Alexandre Frota e sua galera nada entendida de educação (socorro!) não quer dizer exatamente sem partido na escola, uma vez que realmente a escola precisa ser apartidária. Mas quer dizer escola sem ideologia, e nesse sentido, não existe neutralidade política. Buscar neutralidade já é um posicionamento. Esclarecendo, mais uma vez, ter ideologia não significa ter partido, e sim posições políticas como, por exemplo, a escola ser a favor do respeito às diferenças de pensamentos e às igualdades de direitos.

Uma escola que em seu projeto político-pedagógico e em seu cotidiano não se coloca comprometida com o desenvolvimento de atitudes colaborativas e éticas de seus alunos e alunas para com a manutenção e a melhoria de nossa vida em comum então, sinceramente, fecha as portas dessa escola. Afinal, de que uma escola serve se não for para instigar as crianças e jovens a buscarem formas mais justas, humanas e respeitosas de convivermos, isto é, para ensinar que outro mundo é possível?

Para mim essa é a única razão de escola existir.

Segue vídeo de Leandro Karnal. Ele explica melhor..



Está acontecendo uma Consulta Pública a respeito. Vote contra, essa é uma questão muito séria.

https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=125666

Figurinhas das Olimpíadas

Adoro o clima de Olimpíadas!

Ver um monte de gente diferente do mundo todo reunida, por si só, já me parece um grande motivo para celebrar! Em torno ainda o esporte, melhor ainda. Gente que batalha, que se arrisca, que se supera e nos mostra como o horizonte é sempre maior do que podemos ver.

Sem grandes ilusões, sabemos que vida de atleta muitas vezes não é nada saudável, que a competição entre os atletas muitas vezes não é nada amigável e que os interesses políticos e econômicos muitas vezes se sobrepõem aos valores éticos. Ainda assim acho que ao vivermos esse tipo de experiência poderemos aprender a fazer melhores escolhas que visam o bem comum. Nesse sentido, também acho que se nossos governantes não fossem corruptos não precisaríamos viver dilemas como Olimpíadas ou educação/saúde etc., uma vez que tudo nos isso nos interessa, e merecemos tudo.

Não acho que conseguirei ir a algum evento, mas mesmo de longe ficarei na torcida para que a Festa do Esporte seja linda como também ficarei na cobrança para que as promessas feitas sejam cumpridas - tal qual meu amigo Gabriel Passetti...

"Foi muito comum ouvir nos últimos 6 anos aquele clássico discurso "obra pública no Brasil sempre é concluída na correria" e os maiores exemplos apareceram na Copa e nas Olimpíadas. Claro que este discurso sempre teve a origem naquela velha máximo da "eficiência da iniciativa privada".
Pois bem, colado ao Campo de Golfe Olímpico fica o "Vogue Square Life Experience", complexo com 33 mil m²: hotel com 222 suítes, centenas de salas comerciais, centro de convenções e um "mall gastronômico gourmet com mais de 100 marcas prêmium do mundo".

A pergunta é: está pronto? Não. Prometido para dezembro do ano passado, está a maior correria por lá. Enquanto isso, estádios, arenas, etc estão prontos.
Moral da história: obra sempre demora mais e sai mais cara. Seja do Estado, seja do capitalista, seja na sua casa."

Aqui em casa, resolvi comprar o álbum para colecionar com as crianças e está sendo muito legal! Pena que estamos em época de férias escolares e não temos podido trocar com os colegas, mas tudo o que estamos vivendo nesse sentido tem sido com muito interessante - desde os combinados sobre a compra de figurinhas, a contagem das moedas para a compra, as trocas com os  primos, a colagem em si a partir da ordenação dos números, as tentativas de leitura dos nomes e esportes e a tomada de conhecimento  sobre os atletas, esportes e curiosidades do evento.

Confesso que na hora de comprar ou não na banca, fiquei receosa se valia a pena embarcar nessa aventura, mas ao prestar atenção na capa com fotos de um homem, uma mulher e um atleta paraolímpico as dúvidas se dissiparam... E grata surpresa ao verificar que dentro do álbum os editores buscaram mesmo uma mesma medida aos atletas olímpicos masculinos, femininos e paraolímpicos, o que tem feito Mateus referir-se igualmente aos campeões olímpicos ou paraolímpicos, por exemplo, igualmente - como tem de ser. Emocionante também tem sido ver Mateus e as meninas interessadas em saber mais sobre cada esporte, experimentando as diferentes modalidades em seus corpos desejosos de explorações. Entrar em contato com as histórias dos atletas sobre esforço, treino, processo, espírito de equipe, vitórias e derrotas, certamente serão ótimas referências em suas trajetórias a respeito do valor de cada um desses aspectos. Nessas conversas, uma situação muito bacana que vivemos foi contar a eles que conhecemos uma competidora do salto com vara, a Joana Costa. Eles mal acreditaram. Outra situação bacana vivida foi quando fomos ao circo, e ao ver as "dançarinas dos céus" Mateus não se conformou ao saber que elas não estariam nas Olimpíadas "mas elas são tão boas". Do mesmo modo como eu não me conformei ainda com a história da morte por militares de uma onça-pintada. A cena de Mateus aos berros de felicidade porque ganhou a figurinha dessa nossa mascote me doeu muito. Tive vontade de rasgar o álbum e denunciar a ele todo abuso que acontece nos bastidores e às vezes até mesmo na frente de todos, como foi o caso. Mas me segurei. Não quero criar filho sem esperança de que as coisas podem ser diferentes e mudar para melhor.

Minha torcida maior é sempre para isso. Por tempos mais humanos. Que as Olimpíadas nos ajude nessa direção.

Outros relatos: Leka

Segue uma reflexão de minha amiga Leka sobre algumas questões sérias e urgentes de nossa sociedade que pedem nossa coerência e posicionamento.


Como mãe e professora tenho refletido muito sobre nossa sociedade e qual é nosso papel diante dos tempos em que vivemos. Em um momento em que o certo e o errado, o justo e o injusto parecem cada vez mais difíceis de serem definidos, penso ser o instante em que cada um de nós faz a diferença. 


Recentemente assisti aos documentários "O Começo da Vida" e "The Kids Menu" (Disponíveis no Netflix. Super recomendo ambos!), que fizeram-me refletir ainda mais sobre o que é educar para a vida, para o mundo. Se por um lado "é preciso um povoado para fazer dar certo", por outro "se você cuidar das pequenas coisas, as grandes se resolverão sozinhas". Dessa forma, fico pensando o quanto não é suficiente que em minha casa uma alimentação mais saudável seja uma premissa, se na maioria das outras famílias não for, por exemplo.

Outro dia participei de uma palestra com os profissionais do Alimentamente, na qual pudemos refletir bastante sobre a formação de hábitos e a importância de "tudo começar por nós". Precisamos pensar no ato de consumir como uma força política. Teremos maior oferta de alimentos orgânicos, frescos e mais saudáveis, a medida que nós, os consumidores, exigirmos isso do mercado. Essa exigência começa pela escolha do que comprar. Comprar alimentos pelo que são e não pelo que sua embalagem representa. Qual sua origem? Quanto de lixo suas embalagens vão produzir? Quais os ingredientes que o compõe?

Em uma sociedade cada vez mais individualista, pensar que, como vivemos em comunidade, não basta que meus filhos sejam educados e alimentem-se bem, por exemplo. Eles viverão e crescerão cercados de outras pessoas e quanto mais bacanas e saudáveis elas forem, melhor será para todos.

Um pequeno, mas grande passo para as mudanças está na alimentação. Fazemos pelo menos 4 refeições ao dia e quanto mais as crianças estiverem implicadas nisso, melhor para todos, não?

"Uma criança, uma família, uma comunidade...", quanto mais pensarmos em rede e acreditarmos na potência de nossas crianças, acredito, teremos uma sociedade mais feliz, saudável e justa.

domingo, 19 de junho de 2016

Eu me ensino aprendendo com eles...

Outro dia aqui em casa, Mateus estava em busca de um meião limpo para usar. Como não encontrávamos lhe perguntei o motivo de tanta preocupação. "Ah, mãe, é que lá na escola a gente gosta de fazer a turma do meião". Num misto de sentimentos de achar uma fofura essa identidade da turma e ao mesmo tempo preocupação com o que esse tipo de acordo pode gerar: uma rigidez nas relações e consequentemente exclusões, eu retruquei: "Pôxa, legal essa turma! Mas nós não estamos achando o meião e você vai ter de encontrar um outro jeito de participar dela!". Mateus insiste: "Mas mãe, vamos continuar procurando, porque quem procura acha. E também eu gosto mesmo de usar meião, porque eu gosto de usar short. E se não tiver meião você não vai deixar eu ir de shorts no frio."

Procuramos mais um tempo pelo dito cujo, em meio aos meus pensamentos ainda divididos... Uma parte de mim torcia para que o encontrássemos para que fizesse parte da tal turma e não fosse necessário um duelo por causa do shorts e ao mesmo tempo outra parte torcia pelo não encontro, justamente para que tivessemos a oportunidade de enfrentar juntos e de um jeito positivo todas aquelas nossas questões - tão simples e tão complexas de nossas relações diárias. O destino resolveu o impasse e encontramos o meião.

Mateus o colocou feliz, e como ganhamos um tempo em nossa correria para ir à escola por causa da ausência do duelo do shorts então continuei aquela conversa:

- Mas Mateus, me conta como vocês fazem com quem não vai de meião... Você mesmo, hoje quase não foi...
Do alto dos seus 5 anos, ele me responde:
- A gente combinou de ir, porque a gente gosta, mas quem quiser ficar junto, a gente pensa em outra coisa que a gente tem de parecido. Pode ser a turma do azul.
- Que legal, meu filho. Então vocês vão encontrar um jeito de todo mundo participar. Isso não é fácil, mas fico tão, tão feliz que vocês estejam tentando! Acho mesmo que se vocês procurarem bem vão achar algo parecido entre vocês. Mas se por acaso, não acharem, como vão fazer? Quer dizer, e se não der para fazer a turma do azul?
- Ah, mãe, daí a a gente faz a turma do colorido!
(silêncio, abraços, risos e choros, de minha parte, claro, porque ele não entendeu minha reação e logo me apressou para sairmos de casa... Ele tinha uma tarde inteira a explorar na escola!).

Longe de pensar que essa atitude se restringe ao meu filho e me iludir de que sempre ele conseguirá ter atitudes respeitosas como essa, quero pensar de forma ampla...

Quando as crianças participam de um ambiente afetivo com constantes referências cuidadosas, elas são capazes de desenvolver uma capacidade agregadora que cada vez mais temos percebido o quanto é inata aos seres humanos. Essa cena é mais um exemplo de como essa criançada já vem experimentando relações que agregam... E com isso meu coração se enche de emoção e esperança!

"Eu me ensino aprendendo com eles." (desconhecido)



Cá entre nós, pode lindeza maior nessa vida? Pensar que nosso mundo pode ser diferente, com gente que se importa com o outro, que se cuida, que se ama e principalmente, onde todo mundo cabe.

Faz uma semana que no dia do "amor" 50 pessoas em Orlando morreram por falta dele.
No mundo todo, diariamente pessoas morrem, de diferentes jeitos, mas pela mesma razão.

É urgente pensarmos e agirmos a esse respeito. Ontem vi a imagem do primeiro ministro canadense beijando outro homem como protesto ao ocorrido em Orlando. Outro gesto simbólico, ainda mais vinda de um político! Que isso possa nos inspirar que essas autoridades se coloquem a respeito.

Precisamos, tanto no plano macro como no micro, recolher mais cenas assim, afetivas, integradoras, respeitosas e transformadoras para nos enchermos de disposição para enfrentarmos com muita ética essas questões postas em nossas relações diariamente.

Hoje, mais do que nunca, me sinto a voz dessa criançada que pede um mundo mais amoroso e muito colorido! Elas merecem e o mundo agradece.

"Eu tô pela revolução que ainda falta que é a revolução das crianças". (Lydia Hortélio)


quinta-feira, 26 de maio de 2016

A luta da Cultura, da Educação, das Mulheres, das Crianças, da Humanidade

Primeira cena descrita por mim, ainda num sonho...



Carol me acordou: " mãe, conta essa história pra mim?" Ainda sonada, respondi: " vai vendo o livro que eu já conto..." E ela: "mas mãe, eu não sei ver melhor, eu não sei ler!" Morri... ❤️ Minha menina de 3 anos já sabe que ler possibilita ver além!

A cultura diz do modo como vemos nós mesmos, o outro, o mundo, a vida. Se com olhos amorosos ou não. Carol, ao reivindicar com força e paixão por seu direito a pertencer à nossa cultura para qualificar suas experiências, me encheu de esperanças.
"Educação sem cultura é ensino. Saúde sem educação é remediação. Segurança sem cultura é repressão. Economia sem cultura é acumulação. Comunicação sem cultura é manipulação." (Jéferson Assumção)

Neste cenário atual, a luta é pela volta do Ministério da Cultura - que como parte do sistema político também pede reformas urgentes, e principalmente por uma cultura numa perspectiva de desenvolvimento social e econômico com ética e humanidade.
E vamos aproveitar a Virada Cultural de SP.


Segunda cena descrita por Luiz que me enche de orgulho...



Mateus está ensinando as irmãs a escreverem seus nomes... "Pai, a Carolina já sabe fazer a letra A!!!". Quase morri... Sempre lembrando a importância da cultura...



Terceira cena que até agora me parece piada (de mau gosto, claro)...

Alexandre Frota dando sugestões no Ministério da Educação?! Não consigo digerir.

O cara já confessou em redes sociais ter estuprado uma moça inconsciente... Justo num dia que uma moça foi estuprada por 30 homens! Pelo fim da cultura do estupro. Essa cultura não me interessa, ela revela uma das mais antigas de relação de poder que ainda existe em nossa sociedade.

E a proposta dele é por menos ideologia em escola? Neutralidade nesse caso é passividade, o que permite a banalização de violências como essa. Professores não poderão ensinar às meninas que elas nunca são vítimas quando se trata de estupro. Não é o tamanho da saia que estupra. Não é horário que estupra. Quem estupra é estuprador como o tal que agora quer palpitar numa questão séria que ele não entende nada. Mas ele é homem, né? E não tem nenhuma mulher no Ministério... Aff!

Por mais respeito com a educação! Por mais respeito com as mulheres! Por mais respeito com nossas crianças e jovens! Por uma sociedade mais humana. Por mais jovens como os que estão lutando em defesa de suas escolas, eles sim me enchem de esperança e não se calam!

Pois hoje grito muito: "não foram 30 contra uma, foram 30 contra todas!"

Caras como Frota, Cunha e Feliciano que pretendem criminalizar jovens estupradas que tiverem o filho do agressor, Bolsonaro que fez homenagem a torturador que colocou ratos em vaginas de mulheres, essa mídia que acoberta essas ações minimizando os efeitos desse crime com palavras amenas ou quem desfrutou das imagens da menina sendo violentada por 30 homens nas redes sociais ou ainda os homens que mencionados na cena a seguir, não terão mais vez.


Quarta cena descrita por Débora Queiroz, na ficção mais verídica que já vi (via facebook)...



30
Foi atrás do vídeo 31
Acredita que a vítima provocou isso, por estar bêbada 32
Afirma que "mas nem todo homem é assim" 33
Diz pra sua filha sentar como mocinha 34
Acha que mulher tem que se dar ao valor 35
Compartilha foto de mulher pelada, sem autorização dela, no whats 36
Ri das piadas machistas e permanece no grupo machista de amigos do whats, pra "não ficar chato" 37
Consome pornografia tradicional que só reforça a submissão feminina 38
Fala pro seu filho que ele é homem, então ele pode 39
Obriga sua namorada a transar sem estar afim, mesmo que usando só pressão verbal 40
Chama de "puta" ou "vadia" quando fica bravo com uma mulher 41
Acredita que beijo roubado é mais gostoso 42
Não foram só 30. E eu poderia facilmente chegar a cem, mas meu filho acordou, e eu cuido dele sozinha. 43


Quinta cena descrita por Débora Negreiros que me enche de esperança (via facebook):


Conversando sobre o que significam os direitos das pessoas, em especial das crianças, uma aluna diz assim:
- Sabia que muito antigamente as meninas não podiam ir para a escola para estudar?

Pegas de surpresa, algumas crianças não acreditam nessa informação, e outras nos perguntam por quê. Ao que outra menina responde/pergunta assim:
- É porque elas já eram muito espertas?

E pronto. É por isso que a gente precisa de feminismo. Pra que algum dia todas essas lutas bestas que a gente passa hoje nem entrem na cabeça das crianças, e quando elas tentarem entender, vão achar algum motivo de deixar os adultos de queixo caído!

Uma viagem na viagem em Reggio Emilia

Sabe quando metade de você quer uma coisa e a outra não? Sabe quando depois a metade que queria fica receosa e a outra que não queria passa a querer isso mais do que tudo? Sabe quando está prestes a realizar um sonho antigo que dá medo justamente porque sabe que a partir de então as coisas vão mudar? No momento me sinto assim... Com minha humanidade aflorada em todos meus sentidos rumo a novas experiências! Nesta viagem, levo e deixo o melhor de mim.



A viagem começou... Conexão em Londres. Me animei em comprar uma lembrancinha bem singela, do tamanho de minha passagem por essa cidade. Dentre muitas opções esteriotipadas me encantei por uma caneta. Na hora de pagar me atrapalhei na máquina, e me sentindo uma tola fui pagar do modo tradicional. Foi quando me senti ainda mais tola ao me ver com um monte de libras que não usaria. Ao desfazer a confusão vi que acabei perdendo dinheiro (justo ele que nunca para na carteira). Mas ainda bem a vida não se baseia só na economia! Foi o que pensei quando me acalmei, porque "na cotação da vida eu ganhei". Afinal, eu queria uma lembrança desse momento e nunca esta vem pelo objeto por si só, mas pelas histórias que eles carregam. São as narrativas que construímos que dão sentido às nossas vidas. E para minha alegria, a caneta coube certinho no caderninho que ganhei da Andrea. É certo: ao final voltarei com o caderno cheio e a alma leve.
PS: esse acontecimento me lembrou do filme "o contador de histórias", recomendo!




E cheguei à Itália! Ainda não acredito que não se trata de um sonho... Confesso que na hora de pisar o chão pela primeira vez deu até vontade de beijá-lo tal como faz o papa - esse fofo que acolhe a todos, sendo ou não católicos. Ao invés disso, chorei de emoção e aos poucos percebi que meu frio na barriga passou, deixando minha barriga vazia. E talvez justamente por conta dessa ausência do medo logo senti uma fome... Uma fome imensa de mundo! Como boa taurina, em geral, funciono assim diante de mudanças para depois conseguir desfrutar delas. Quase um ritual de passagem: respeitando meu ritmo e contando com apoio procuro me esvaziar (um tanto) para fazer caber as novas experiências e ter fôlego de digerir os novos assombros gerados a cada novo encontro. Hoje, vivi um dia intenso nos museus (onde reencontrei obras que ajudaram a me formar) e parques (onde vi muitos italianos usufruindo de sua cidade com maior engajamento e outros passando necessidades - as coisas estão difíceis pra maioria dos países). No fim, participei de uma manifestação, pelo tanto que me senti envolvida, afinal somos todos a favor da ideia de família diversa tendo em comum o amor.




E ontem ainda teve tango! Pensa na cena: você está numa praça, já começando a pensar em ir embora porque está com frio e cansada e de repente uns senhores e umas senhoras, todos super em forma, começam a dançar tango com umas máscaras de lobo e isso vai chamando a atenção de todos que se juntam. Logo, velhos e jovens, homens e mulheres, arrumados e desencantados estão dançando com o maior deleite! Surtei. Só não dancei junto porque era tango... Rs Depois de um tempo ainda contaram que a máscara é uma forma de protesto a uma lei que está para ser aprovada e que pode colocar os lobos em risco de extinção. Sensacional! Dormi nos céus! E como dormi!!!! Perdi o café da manhã até... Rs e também me perdi do mundo, pois passei o dia desconectada... Computador não cabia na tomada, arrebentei fio do celular, no trem sem Wi-Fi livre e no hotel em Reggio (sim, cheguei!!!) a internet com problemas. Achei fofo algumas pessoas me cobrando mais histórias...Rs. Acho que foi um sinal para eu me desligar e me concentrar no que estou vivendo, em como essa experiência é única e não vale a pena perder nada! Amanhã começa o curso em Reggio e conforme for possível dou notícias, certamente outras muito sensacionais!




Um brinde de Spritz ao afastamento de Cunha! Que caiam outros! Tim tim.




É hoje a estreia do maravilhoso filme "o começo da vida", que por meio de imagens e histórias emocionantes aflora nossa humanidade. Luiz e minhas meninas participaram desse projeto. Foi uma participação pontual, uma tarde no parque que resultou em três tomadas rápidas, mas suficiente para nos deixar orgulhosos por ser parte de um filme que valoriza a infância. Neste momento, tão longe de meus filhotes e meus alunos e alunas a saudade fica ainda maior. Um oceano nos separa. Por outro lado, estar numa cidade que valoriza a infância me faz sentir totalmente mergulhada... Na infância, no humano, no belo, no ético, na vida, na poesia, na história... Sobre Reggio Emília e o porquê de eu ter sonhado tanto estar aqui: Fim de guerra. Pessoas precisando se recompor, almas precisando ser curadas, cidade precisando ser reconstruída. Nesse processo, escolhas precisam ser feitas e estas sempre revelam... Neste caso, o que há de melhor nos seres humanos envolvidos. Pensa... Numa assembleia da população sobre como usar o dinheiro arrecado com a venda de um tanque de guerra, homens queriam a construção de um cinema e vou mulheres, de escolas. Quem ganhou??? Naquele momento, as escolas. Mas hoje vemos que todos ganharam! É mesmo muito inspirador ver o tanto que essa população construiu a partir da opção pela infância e tudo mais que vem junto... Esperançosa que sou, acredito que podemos aprender com experiências como as do filme e as de Reggio, e assim navegar juntos por novos mares!
PS: fiz esse barquinho amarelo no REMIDA...





A placa diz tudo: uma escola da infância em Reggio Emília em homenagem a Paulo Freire! E o meu sorriso diz um pouco de minha infinita emoção! Num lugar que respira e inspira uma vida poética bom saber que também aprendeu um pouquinho com a gente! "Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário." Assim, num clima de "Reggio Freire" volto animada para continuar nossas construções de escolas transformadoras - tal como os nossos jovens estão fazendo!




Contar sobre o que entendo por educação, representando uma equipe toda já é em si uma experiência inesquecível! Mas como tudo na minha vida, uma história emenda na outra... Pois antes de minha apresentação o pen drive não funcionou e quando eu já ia desistir minhas colegas não deixaram e me animaram a ir até o hotel buscar meu computador... Nisso, a pedagogista italiana (fofa!) me ofereceu sua bicicleta... E lá vai eu, em meu último dia de Reggio Emília pedalar pela cidade... Foi sensacional! Por esse apoio de todos, por vencer uma dificuldade e principalmente por pedalar pela cidade. No caminho, vi e senti coisas que ainda não tinha experimentado andando à pé, e isso ajudou a me tranquilizar e a me despedir desse lugar que deixa marcas tão fortes em mim.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Pelas ruas de São Paulo

(texto escrito em 14 de fevereiro)

Hoje foi desses dias alegres de abrir facebook: um monte de imagem de gente na rua, pulando carnaval, tomando um sol, uma cerveja, um picolé, andando a pé, de bicicleta, de skate, comemorando ano chinês e outras coisas mais, encontrando outras gentes, iguais e diferentes, se respeitando, se divertindo. E nós também fomos!



É com imensa alegria que tenho visto crescer o movimento de ocupação dos espaços públicos em São Paulo. A cada domingo mais e mais ruas são fechadas para o lazer, e mais e mais eventos de todos os tipos acontecem a preços acessíveis. São todas ações importantes para a construção de uma cidade mais democrática onde cabe cada um e cabe todos. Nesse processo é natural que problemas inerentes às relações passem a emergir com mais força exigindo melhoras na organização deste esquema todo por parte da prefeitura como do que cabe a cada cidadão.

Educadora que sou acredito que se todos nós nos comprometermos com essa construção poderemos encontrar soluções consistentes, criativas e diversas. Não existe A solução para todos, mas as soluções a depender de cada um, e não numa visão individualista, do privilégio e sim da singularidade do contexto. É uma trama complexa, que por vezes nos desanima diante de tanta coisa a ser revista e com poucas referências democráticas que temos em nossas vivências, contudo, ela é necessária de ser enfrentada para que possamos experimentar um mundo mais humano e amoroso.

Para além da maior possibilidade de mais encontros me agrada muito a ideia de pensarmos diferente a cidade. Quem disse que ruas são só para carros? Quem disse que não podemos reinventar modos de viver e conviver? Quem disse que as ruas são só passagens, sem identidades, sem história, sem sonhos?

As novas escolhas que compõem os novos arranjos explicitam nossas posições políticas - que não se restringem a partidos, minha gente. Mas a uma postura ética, a um jeito de olhar a cidade, o outro, o mundo, a vida. Isso é revolucionário no melhor sentido do termo, porque quebra paradigmas e amplia nossos pontos de vista, nos força a habitar outros e a ampliar nossos horizontes.

Quando comemorei com Mateus "estamos dançando carnaval na rua!" percebi que ele não acessou a dimensão desse significado para mim, pois para esse meu menino de 5 anos, a rua pode mesmo ser usada por todos para tal fim - como ele me respondeu: "e cadê meus amigos?". Isso me anima, me faz perceber como a nova geração vai poder desfrutar de experiências com mais qualidade de humanidade e vão construir os próprios significados. Depois ele ainda me disse: "Podia ter aqui um lugar para sentar, queria ver sentado o carnaval". Ou seja, as próprias crianças estão sendo mais estimuladas a recriar o espaço onde vivem.

Segue link muito interessante a esse respeito: http://outracidade.com.br/criancas-criam-propostas-para-fazer-da-cidade-um-lugar-melhor/

E assim, a avenida Paulista que já testemunhou meu primeiro beijo em Luiz agora também presenciou cenas de puro deleite de meus filhos numa tarde de domingo ensolarada. Muito bom poder constituir história pessoal junto a lugares públicos em constantes transformações para todos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Chico Buarque: vai passar...

Vocês viram o vídeo que está rolando de uns caras abordando de maneira ofensiva Chico Buarque quando ele saía de um restaurante? Eu achei pavoroso. E você?

No vídeo as ofensas eram destinadas ao PT. E para você, isso interfere em sua opinião?  

Se sim, você quer dizer que um cidadão não pode mais jantar com seus amigos e sair andando tranquilamente pela rua simplesmente porque a opinião dele é diferente da sua, e que por isso ele vira um "merda" para você que se acha dono da verdade?

Se sim, preciso te dizer que você está muito equivocado - e aqui assumindo o risco de virar um merda pra você também. E está equivocado não em concordar com o que aqueles caras falaram sobre o PT. Isso você tem o direito. Todos temos. Assim como temos o dever de respeitar o diferente, de nos expressarmos mas de maneira respeitosa ainda mais quando o "grave" que essa pessoa fez foi colocar sua opinião.

Quando alguém se acha no direito de abordar de maneira agressiva alguém na rua simplesmente porque pensa diferente está minando a democracia. Em tempos que pessoas defendem a volta da ditadura - sem terem a dimensão do quanto de problemas e de corrupção, os quais temos até hoje desde essa época isso sem falar na violência toda que envolve esse tipo de governo - banalizar situações como essa é ainda mais perigoso.  Agora, se você achou aquela uma discussão normal então você precisa ampliar seu repertório, estar entre gente mais cuidadosa, porque aquilo em nada teve de embate de ideias respeitoso e saudável.

O fato de ser o Chico torna apenas a questão mais emblemática, porque se até ele - acho que dispensa falar de seu currículo, de sua postura ética na vida e de sua luta para que possamos nos expressar -  vem sofrendo esse tipo de agressão imagina uma outra pessoa? O que estamos fazendo quando banalizamos situações como essa de "tudo bem", "se não está devendo nada não tem o que esconder" ou "se ele lutou tanto pela liberdade de expressão agora aguenta"? Liberdade de expressão não tem a ver com soltar merda por aí mas de podemos nos colocar e sermos respeitados por isso desde que nossas colocações sejam pautadas na ética do coletivo e da integridade humana. E não foi o que ocorreu naquela cena.

Quando a mídia vende essa cena como "Chico bateu boca defendendo o PT" ela também revela o quanto está fomentando um cenário de polarização em que temos que nos armar uns contra os outros que pensam diferente. Chico foi abordado e tentou colocar seu ponto de vista, mas não conseguiu, foi logo insultado. Se nem no cenário do futebol uma cena dessas é aceitável quanto mais na política que não deveria funcionar assim. É verdade que muitos petistas também já abordaram gente do mesmo modo. E aqui reforço, também estão equivocados ao não preservarem o direito do outro se colocar.

Agora, se você respondeu SIM e ainda está me lendo, é porque isso faz algum sentido, não? Então continue a leitura que tem mais gente querendo falar a respeito. E vale a pena! Um outro mundo é possível desde que nos respeitemos e possamos juntos, cada um do seu lugar, contribuir para a construção de uma outra nação mais solidária. Eu também quero.


Outros relatos: Pablo Villaça

Em um momento de lazer, Chico Buarque de Hollanda foi cercado no meio da rua por um grupo de jovens ligados ao PSDB e insultado por "defender o PT". Aparentemente, estes projetos de fascistas não compreendem que TODOS temos o direito de expressar nossas opiniões políticas, agradem estas ou não. Chico, que nem político é, foi agredido por se manifestar como cidadão - algo que os veículos da mídia manchetearam como (acreditem) "Chico bate boca defendendo o PT no meio da rua: cantor retrucou grupo que atacou o partido".
Não, jornalixo brasileiro, o grupo não "atacou o partido"; atacou CHICO num momento de lazer e no meio da rua. E ele não "bateu boca pelo PT"; foi cercado e insultado por estranhos e defendeu sua posição ideológica.
O cara é um patrimônio cultural do país, um senhor de mais de 70 anos de idade, é cercado e insultado por um bando de moleques fascistas e a mídia trata isto não só com normalidade, mas ainda tentando atribuir a ELE a falta de civilidade da situação à qual foi submetido.
Os veículos de comunicação brasileiros estão esperando alguém morrer graças ao clima de ódio que ajudam a criar. Aí, então, começarão a publicar matérias sobre "tolerância" pra se isentarem de culpa. (Não à toa, um colunista demitido de Veja publicou foto malhando e dizendo que se preparava para a "única forma de dialogar com petista", num estímulo irresponsável à violência e à agressão como forma de "debate".)
A verdade é que esses caras têm alma fascista. Não suportam mais a distância do poder e usam "corrupção" como um chavão que disfarça seu propósito real: o não à inclusão social. Se a questão fosse mesmo "corrupção", não abraçariam Cunha como aliado. Protestariam também contra a privataria tucana, o aecioporto e a roubalheira no metrô de São Paulo.
Mas não, o panelaço é seletivo: Alckmin pode fechar 100 escolas; Haddad não pode abrir a Paulista. São milhões de Cunha; já Chico é um "merda".
Aplaudem Macri na Argentina, que indica ministro de Supremo por decreto, mas atacam o STF brasileiro por defender a Constituição numa interpretação que ganhou apoio de praticamente todos os juristas de relevo ao barrar os abusos do presidente da Câmara.
Acham absurdo o bolsa-família que ajuda o povo mais pobre a COMER, mas aplaudem que os ricos paguem impostos ridículos, significativamente menores do que o restante da população.
Querem uma desregulamentação completa do mercado e depois vêm colocar avatarzinho triste por Mariana.
Dizem que vivemos numa "ditadura petista" enquanto cercam um músico de 71 anos na rua para insultá-lo por se expressar como cidadão.
Saem pedindo impeachment no aniversário do AI-5 e se espantam quando são chamados de golpistas.
Acusam a esquerda de "burrice", mas usam "pão com mortadela" e "chola mais" como argumento.
Abraçam a bandeira brasileira e colocam "PATRIOTA!!!" na bio, mas são os primeiros a diminuir o país num viralatismo constante diante do mundo, além de adorarem falar mal do Cinema brasileiro - que conhecem só de ouvir falar.
Amam quando um comediante chama negro de "macaco", gays de "vitimistas" e mulheres de "vadias", mas dizem que os homens brancos cis heterossexuais sofrem preconceito.
Dizem que a esquerda prega "luta de classes", mas chamam esquerdistas de "pão com mortadela" e "esquerda caviar".
Adoram se dizer éticos, mas acham natural que o líder do MBL peça doações em sua conta pessoal.
Acham certo a PM espancar manifestantes (mesmo adolescentes), que chamam de "vagabundos", mas só conhecem a PM que tira selfie na Paulista.
Por isso tenho orgulho de ser de esquerda. De fazer críticas ao governo que se afastou dos movimentos sociais, mas de defendê-lo contra o golpe - pois, mesmo com todas as suas graves falhas, AINDA enxergo nele uma preocupação com os excluídos sociais que JAMAIS serão abraçados por esta oposição.
Uma oposição que prega que quem manda é o "deus mercado". Não, me desculpem, mas prefiro bem mais quem enxerga no desenvolvimentismo a opção mais humana.
Para encerrar - e com a maquiagem borrada pelas lágrimas - digo: "LEAVE CHICO ALONE!". Emoticon wink
E viva o debate saudável.


Outros relatos: Irajá Menezes

ESTORVO NAS RAÍZES DO BRASIL
Ontem à noite, pros lados do Leblon, Chico Buarque avistou-se com o brasileiro cordial.
Chico manteve a calma, não perdeu a elegância. Na verdade, não houve surpresa. É que Chico conhece como ninguém o brasileiro cordial.
Não apenas porque foi seu pai quem explicou que bicho é esse. Isso, por certo, ajudou.
O fato é que o poeta de olhos cor de ardósia não é de contar vantagem, mas todo mundo sabe que percebe de longe a cordialidade. Afinal foi ele quem descreveu com mais detalhes o brasileiro cordial.
O brasileiro cordial é aquele que fotografa com a câmera cujo foco toda lírica solapa.
Aquele que amassou as rosas, queimou as fotos e beijou Lily Brown no altar.
O brasileiro cordial é a voz do dono. É o dono do bosque onde todo balão caía, toda maçã nascia (e o dono do bosque nem via). Aquele que deve a Deus seu éden tropical, mas pode vender. Quanto você dá?
Foi o brasileiro cordial que inventou de inventar toda a escuridão. Que inventou o pecado.
Foi ele que obrigou Angélica arrumar o quarto do filho que já morreu.
E esqueceu-se de inventar o perdão.
O brasileiro cordial é um dos pagantes, bêbados e febris, exigindo bis quando Beatriz despenca do céu. É um dos homens tristes, à frente de uma mulher feliz, enrustido, com cara de marido. O bruto da brasa na coxa de Ana de Amsterdam. O japonês trás de mim. É ele quem bate, cospe, joga bosta na Geni.
Ele é o noivo correto, o empregado discreto, o macho irrequieto, o funcionário completo, fala de cianureto, tem um caso secreto, um velho projeto, às vezes cede um afeto, quase que fez fortuna. Até que a morte os una, os brasileiros cordiais armaram tocaia lá na curva do rio. Puseram no tronco, talharam o corpo, furaram os olhos do escravo que no engenho enfeitiçou Sinhá.
Para ele vivem as mulheres de Atenas. É ele que faz mil perguntas que em vidas que andam juntas ninguém faz. Que conta as horas nas demoras por aí.
Tatuagem no braço e dourado no dente, assim como veio partiu não se sabe pra onde. É o aborígene do lodo, o homem que vem aí. O malandro regular, profissional, com aparato de malandro oficial, candidato a malandro federal, com retrato na coluna social, com contrato, com gravata e capital.
O brasileiro cordial.
O brasileiro cordial reclama se alguém agoniza no meio do passeio público, porque atrapalha o tráfego. Serve a bebida amarga do cálice de vinho tinto de sangue.
É a ele que agradecemos: "Deus lhe pague" por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir, a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir, por me deixar respirar, por me deixar existir. Deus lhe pague, brasileiro cordial.
Obriga o jumento a levar o pão, a farinha, feijão, carne seca, limão, mexerica, mamão, melancia, areia, cimento, tijolo, a pedreira até quando a carcaça ameaça rachar.
É o da pesada, responsável pela omissão um tanto forçada. Largou o guri no mato, rindo, lindo de papo pro ar. Estampou na manchete, retrato com venda nos olhos, legenda e as iniciais.
Fez alvoroço demais, o brasileiro cordial.
Fez o faz-de-conta terminar numa noite que não tem mais fim.
Subtraiu a pátria em tenebrosas transações.
Acendeu a fogueira que queimou o samba, a viola, a roseira. O brasileiro cordial é a roda-viva que carrega o destino pra lá.
O brasileiro cordial não gosta do Chico. Mas a filha gosta.
Mesmo que não se alimente o seu gênio ruim, encontra motivo pra injuriar.
É um eterno devedor. Deve favores ao compadrio. Deve honras ao padrinho. Por isso sai na rua, sedento para saldar as dívidas.
Chico escreveu um livro sobre ele. E mostrou que o brasileiro cordial está no asilo, nos últimos dias de vida. Sua memória já se embaralhou. Perdeu a conta.
O brasileiro cordial chora o leite derramado. Tem medo que aquele trem de candango, formando um bando de orangotango, não seja apenas parte de um sonho medonho e queira mesmo lhe pegar.
Será que é por isso que ataca?
Se há alguém que sabe quem é o brasileiro cordial, esse alguém é Chico Buarque de Holanda.
Os playboys fascistas que o aborreceram, ao contrário, não fazem a menor ideia de quem seja Chico Buarque de Holanda. Se soubessem não pagariam mico em rede nacional.
O brasileiro cordial cansa. É tanta mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça.
Mas... vai passar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Jovens estudantes de luta

Esses jovens estudantes que ocuparam (e não invadiram) suas escolas para defendê-las me encheram de orgulho e me deram mais ânimo para continuar acreditando que mudanças boas virão!

Neste caso, o problema não se trata da "reorganização" que o governo estadual de São Paulo insiste em dizer, mas da arbitrariedade em fazê-la. Esse tipo de medida precisa ser dialogada com todos os envolvidos e consideradas as especificidades de cada escola para encaminhamentos ajustados e não massificados a toque de redução de custos e camuflagem de outras intenções como a terceirização do ensino público.

A notícia em si não é exatamente uma surpresa para quem acompanha o desmonte que vem sendo feito na rede púbica de ensino estadual, contudo, ainda assim saber que o governo tucano no Paraná começou o ano batendo em professores que reivindicavam pacificamente seus direitos e termina o ano em São Paulo batendo em estudantes que não querem que suas escolas sejam fechadas é um absurdo. Tão absurdo é a população não se solidarizar com tais lutas que por mais que tenham alguns movimentos envolvidos manipuladores a maior parte refere-se a gente idônea que defende a melhoria do ensino público e não merece apanhar por isso. "Uma sociedade que bate em seus jovens que pedem por mais escolas só pode estar seriamente doente" como circulou no facebook. E pensar que muitos não os apoiaram justamente porque continuam polarizados PT ou anti PT, como se fazer política fosse igual torcer para time de futebol. Não é. Do mesmo modo que vejo problemas nos programas do PSDB vejo  no programa federal Pátria educadora, e todos merecem ser seriamente discutidos por todos, para que tenhamos um programa de qualidade.

Os estudantes deram um show de organização em seus protestos pela melhoria da educação - em todos os âmbitos. Organizaram-se nas respectivas escolas arrecadando alimentos com a comunidade, com a benfeitoria dos espaços e com atividades culturais. Frente à tentativa do governo de fechar cerca de 100 escolas, 200 foram ocupadas em solidariedade. Vitória deles quando conseguiram movimentar medidas judiciais que adiaram essa reorganização colocando essa questão na pauta das urgências e dando tempo para a busca por soluções mais efetivas. Vitória da educação, do empoderamento desses jovens.

Na torcida para que cheguem logo ao poder. Meu voto é deles.

Esses jovens aprenderam muito nesse tempo de luta em defesa da melhoria da educação ao exigirem um diálogo com o governo. Nesse período cuidaram de suas escolas - limparam jardins, banheiros, pintaram paredes e isso certamente vai fazer diferença na relação deles com esse espaço. Do mesmo modo aprenderam muito como conversar e refletir e isso certamente vai fazer deles estudantes mais críticos das aulas. Os professores que se preparem porque a molecada está mais exigente - no melhor dos sentidos!