quinta-feira, 21 de maio de 2015

Cabimentos

Encontro é quando você afeta e/ou é afetado por outro.

Fui afetada pela reunião de pais de minha querida filha Isabel. As palavras, cenas e provocações que ali foram compartilhadas estão me rodeando, buscando encontrar mais frestas para poder fazer caber tudo dentro de mim. Para me alargar, me pôr num movimento produtivo, instigante, dolorido, encantador, revelador, transformador. Tudo muito simples, tudo muito complexo. Tudo muito genuíno de cada pequeno grande gesto de cada pequeno grande ser humano que vivencia diariamente aquele ambiente.

Delícia poder fazer parte um pouquinho também. Ganhar ajudar para ler minha pequena, e consequentemente meus pequenos (aqui de casa e da minha escola). Maravilha poder acompanhar esses processos potentes de criança respeitada em sua infância. Orgulho. Gratidão. Afetos.

Naquela ocasião ganhamos de presente uma música de Arnaldo Antunes como meio de entrarmos em contato com as pesquisas e descobertas das crianças deste grupo. Essa música me tocou, e estou com ela até hoje dentro de mim como um dia meus filhotes também já estiveram.

A música chama-se "Cabimento" e desde então tenho pensado sobre essa palavra, sobre os sentidos que cabem nela, e sobre o 'caber' e o 'não-caber' de todas as coisas:

O que cabe na minha vida, nas minhas escolhas? O que não cabe? O que não tem cabido, mas tenho que fazer caber?

O que não cabia antes, mas agora cabe? O que cabia antes, mas agora não cabe? O que sempre coube?

Em quais lugares e contextos eu caibo, me sinto parte, pertencente? Onde não caibo e não quero vir a caber? Onde não tenho cabido, mas preciso fazer movimento para vir a caber?

Qual espaço disponibilizo dentro de mim para fazer caber a mim próprio, as pessoas queridas, meus ancestrais, a cultura construída por eles, os valores que elegi como essenciais, o modo de vida que busco como ideal? Qual espaço disponibilizo dentro de mim para as pessoas não-queridas, meus preconceitos, meus vícios e comodismo?

Todos nós queremos e devemos caber nesse mundo, e por que o mesmo não tem acontecido? Por que uns cabem e outros não? Por que aceitamos essa situação? Por que não nos empenhamos para todos caberem, transgredimos nossas próprias regras?

Por que pouco nos experimentamos alargados pelo outro? Por que perdemos a chance de vivenciar mais experiências coletivas que dão maior sentido às nossas existências, fazendo-as nem caberem dentro de nós mesmos?

Por que buscamos fazer caber tudo dentro de nós como se estivéssemos organizando uma gaveta de meias e não como se fossemos um grande baú de recordações que cada experiência guarda sua essência e toda memória vira uma narrativa?

E afinal, todas essas ideias têm ou não cabimento?

Agora, talvez o segredo da vida seja justamente as coisas não terem cabimento? Pois não cabendo mais em nós mesmos, nós crescemos...


Uma das experiências mais transformadoras em minha vida foi a maternidade. Fazer caber dentro de mim vida! Lembro-me de ser inundada por um amor tão grande pelo Mateus que vez ou outra eu perguntava a ele: "Onde guardo meu amor por você que já não cabe mais em meu peito?". Desse amor sobrando em abundância nasceu Carolina e Isabel e o que parecia um problema resolvido foi na verdade mais um complicador para o 'caber' desse amor dentro de mim. Por outro lado, aos poucos e cada vez mais, passei a ver essa questão de maneira diferente justamente quando me dei conta do quanto esse amor tem me movido desde então. Assim, passei a agradecer por esse sentimento se espalhar dessa maneira interminável me impelindo a estar viva. Muito viva. E de querer a melhor vida não só para mim, meus filhos, minha família, mas para o mundo. Quando esse amor genuíno nos toma dessa forma ele nos transforma para além... Ele nos convoca a retomar nossa ancestralidade, nos faz sentir parte e o quanto temos de fazer caber todas as crianças e jovens em tudo que já construímos e temos direito de usufruir. E cada vez tomando maior consciência disso, venho lutando e buscando aproveitar a vida junto de seres queridos como meus filhotes que mal cabem em suas roupas de tanto que crescem rápido...


CABIMENTO
(ARNALDO ANTUNES)

 
como uma agulha cabe numa caixa de fósforos
ou num caixão
num palheiro num jardim no bolso de uma pessoa
na multidão
caminhão montanha tudo cabe em seu tamanho
tudo no chão
hoje eu caibo nesse mesmo corpo que já coube
na minha mãe

minha mãe
minha avó
e antes delas minha tataravó
e antes delas um milhão de gerações distantes
dentro de mim

um lugar
num porão
uma cama num colchão
como um átomo num grão
uma estrela na galáxia

como a bala de revólver cabe no revólver
cabe também
numa caixa num buraco bem no centro do alvo
ou em alguém
onde cabem coração cabeça tronco e membros
soltos no ar
como cada gesto cabe no seu movimento
muscular

só nós dois
meu amor
não cabemos em mim ou em você
como toda gente tem que não ter cabimento
para crescer






 

 



 
 


 


 

sábado, 16 de maio de 2015

Casório cheio de emoções

Outro dia fomos ao casamento de meu irmão Raphael com a Fernanda quando vivenciei muitas emoções...

Ver meu irmão apaixonado, formando um casal lindo e participando do ritual de um enlace matrimonial foi ter mais uma vez a certeza de que o amor vale à pena!!!

Parabéns aos recém-casados, que o sentimento bonito que um nutre pelo outro possa ser experimentado por meio de diversos gestos e palavras no decorrer de suas trajetórias.



O evento aconteceu no mesmo lugar que eu e Luiz nos casamos em 2007, o que fez com que me sentisse num verdadeiro túnel do tempo. Memórias, muitas memórias: o churrasco que virou um grande evento, o stress da preparação, o encantamento com tudo que envolvia o ritual, a possibilidade de escolher cada detalhe com significado, o arrependimento de ter feito escolhas porque disseram que "tem que ser assim" ou ter feito escolhas rápidas como não ter chamado nossos irmãos para serem nossos padrinhos, os presentes carinhosos, a alegria, o medo, a emoção, o dia lindo, os atrasos, o nervoso, as madrinhas perdidas, a cerimônia bonita, a vergonha, o lugar especial, a história inspiradora, o amor, os sorrisos, os abraços, as lágrimas, as boas energias, as presenças, as ausências, as palavras, a música, a festa, a caipirinha de tequila, as cadeiras voadoras, os bens casados escondidos, o tombo do buquê...

Em meio a esse clima de memórias e emoções a partir de uma experiência semelhante, contudo, nova e singular, o casório de um jovem casal querido, eu e Luiz renovamos nossos votos...

Meu amor, que venham muitas outras histórias bonitas para construirmos juntos!!!

E dessa vez contamos como testemunhas de nossa união os nossos filhos. Afinal nossas vidas ficaram ainda melhores com a chegada de mais gente querida, as mais queridas, os nossos filhotes!!!



A presença de nossos pequenos nesse momento também fizeram nossos corações derreterem... Os três participaram da cerimônia com muita graciosidade, e depois divertiram-se à beça durante a festa brincando com outras crianças, correndo para todos os cantos, dançando, comendo e rindo muito e como Isabel disse: "Eu gostei daquela festa. Eu quero ir de novo". Mas o principal foi que os três puderam experimentar um momento mágico: aos olhos das meninas, um universo das princesas com muitas mulheres de saias e vestidos, muita música para dançarem, fantasias para brincarem de máscaras, bigodes, óculos, aos olhos do Mateus um grande evento com muita gente querida e a possibilidade mais uma vez de ver e sentir o clima de amor, elaborando hipóteses a respeito de por quê as pessoas se casam - até o momento ele acha que é para ter filhos (estou tentando ampliar tanto que lhe contei que algumas pessoas se casam e não querem ter filhos quando ele me perguntou para se assegurar: "Mas você quis, né?", "Simmmmm, meu filho!" rs).


Meus filhotes, que esse clima de "o amor está no ar" continue para sempre!!!


Meus filhotes, que a vida continue nos presenteando com momentos prazerosos como esse!!!

sábado, 9 de maio de 2015

Dia das mães 2015: cara a cara

Outro dia, ao começar a montar o jogo 'cara a cara' com Mateus senti um enorme orgulho por compartilhar e reviver um pedacinho de minha infância com meu filho. Naquele momento, tempos e espaços se fundiram e mais um universo paralelo foi criado, no qual me vi mergulhada em meio a diversas imagens e emoções. Um mergulho profundo e rápido, pois assim que Mateus me viu distraída, logo cobrou minha volta: "vai mãe, monta pra gente jogar!".

Quando retomei a montagem percebi o quão desafiante (e chata) era aquela tarefa: separar os plásticos, encaixar as plaquinhas que não se ajustavam de jeito nenhum sem ficarem amassadas - sem falar que quando eu finalmente conseguia encaixá-las em seguida vinha alguma criancinha retirá-las, para meu desespero. Após um tempo nessa luta me vi indignada pela qualidade da fabricação atual desse jogo e com a certeza de que quando eu era criança aquele jogo já vinha pronto.

Foi quando me dei conta de que estava errada.

Não sobre a qualidade do jogo que certamente era mesmo de pior qualidade como todos os produtos de hoje em dia são em relação aos de antigamente, entretanto, estava errada sobre o fato dele vir pronto.

Uma das transformações mais marcantes em minha vida foi a maternidade. Antes eu só era filha. E filha de pais que se esforçaram muito para proporcionar a mim e a meus irmãos uma vida bacana e cheia de mimos fofos como montar um jogo sem que os filhos percebessem.

Ser mãe me colocou em movimento para enfrentar todos os desafios e desfrutar de todas as delícias de gerar, parir, criar e construir uma relação de afeto extraordinário com cada filho. Experimentar o amor por minhas crias me possibilitou entrar em contato com o amor que meus pais sentem por mim e meus irmãos.

Em minha trajetória, mais uma vez sentir-me amada por aqueles que me escolheram colocar no mundo e me criaram, cuidando de meus primeiros caminhos para que nele eu me melhor vivesse foi outra grande experiência que me possibilitou novas significações de minhas percepções.

Quantas mais ações fizeram para mim sem que eu soubesse? Inúmeras!!! E por isso sou cada vez mais grata.

Cada vez mais, acredito que todos nós precisamos reconhecer que se hoje, estamos vivos, sadios e felizes é porque nossos pais ou outras pessoas especiais cuidaram e ainda cuidam da gente, de jeitos visíveis e invisíveis, é um importante passo em nossos processos de humanização.


"É preciso nascer para humano, mas só chegamos a sê-lo plenamente quando os outros nos contagiam com sua humanidade deliberadamente..." (Fernando Savater)


Ter essa dimensão agora faz com que eu valorize ainda mais cada gesto de cuidado que meus pais e tantas outras pessoas tiveram para comigo. E como hoje é Dia das Mães, faço para minha mãezinha um agradecimento especial:

"Te amo.  Obrigada por tudo que fez por mim, em especial às coisas que que não pude ver nem você fez questão de me mostrar, mas que as senti e fizeram a diferença em minha vida. Gestos miúdos, gestos de cuidado, gestos de amor como encaixar cada peça na montagem do jogo, sair engatinhando do quarto para não me acordar quando era um bebê, deixar eu comer o último pedaço de chocolate mesmo querendo também, cuidar de meus pertences com zelo (se bem que isso você adora compartilhar...rs)."

São esses gestos que me inspiram a também ser uma mãezona para meus filhos, tanto é que naquele momento, poder relembrá-los me acalmou e assim consegui finalizar a tarefa da montagem do jogo.

Ao final, ficar cara a cara com meu filho jogando um de meus jogos preferidos de infância e com minhas filhas ao redor, também buscando participar, foi um desses momentos em que todo esforço de ser mãe vale à pena! É mesmo muito gratificante e transformador sentir um amor tão grande por alguém. Amo com todas minhas forças, e quanto mais os amo, mais amo a vida, e tudo que há nela.

Parabéns a todas as mães que se empenham todos os dias para proporcionar momentos como esses aos filhotes. Aproveitem.

E meus sentimentos a quem já perdeu a mãe ou um de seus filhos. Fiquem bem.


Segue texto do Dia das Mães 2013:
http://jujuviroumamae.blogspot.com.br/2013/08/dia-dos-pais-2013.html









sábado, 2 de maio de 2015

Solidariedade aos professores do Paraná


(Armandinho)

 
Minha solidariedade aos companheiros do Paraná que sofreram um massacre por parte da PM durante manifestação, e não confusão como noticiou o Jornal Nacional: "o governador Beto Richa lamenta a confusão de ontem. Vai averiguar." É isso mesmo??? Esse é o posicionamento desse jornal frente ao massacre que aconteceu com professores que lutam por uma educação de qualidade??? Por que não dar o mesmo destaque como fez com outras manifestações que aconteceram pelo mundo??? Cadê toda aquela cobertura a ponto de mudar horário de jogo para acompanhar manifestação que apoia a ditadura???
 
 
 (Armandinho)
 
 
Conversa minha com Mateus a partir desta fotografia:
 
(foto veiculada pelo facebook de um professor durante manifestação de professores no Paraná)


Mateus: "Nossa, que homem feio!"
Eu: "Meu filho, feio é o que fizeram com ele. Esse homem, essa pessoa, esse professor estava querendo melhorar as coisas e bateram nele".
Mateus: "Ah, entendi.... Isso não pode mesmo. (Pausa). Eu não quero que façam isso com você."
Nos abraçamos forte.



Enquanto houver criança conseguindo distinguir certo de errado, entendendo que o outro é gente como a gente e por isso ele me importa, me toca e resolvendo suas questões por meio do diálogo e do afeto eu seguirei acreditando.

Professora com orgulho! 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Meu aniversário...
Tempo de refletir, sair do inferno astral, inaugurar um novo ciclo!!!
Tempo de perceber como o tempo passa rápido mesmo quando tudo parece um marasmo!!!
Tempo de ficar com medo do acelerar das coisas e de cuidar para aquietar, ver a minúcia de cada coisa!!!
Tempo de sentir saudades de algumas pessoas, de outros tempos, de mim mesma!!!
Tempo de ficar junto das pessoas queridas, de ser grata por tudo que vivi e me reconhecer nesse momento!!!
Tempo de ficar assombrada com o crescimento de meus filhos, sentir saudades deles bebês e orgulho de suas conquistas (que também são minhas)!!!
Tempo de agradecer, focar, dispersar, agir, descansar, de comemorar!!!
Tempo, tempo, tempo, tempo...
Sempre me intriga.
Sempre me desafia.
Sempre me surpreende.
Sempre me ensina.
"Todos estamos matriculados
na escola da vida,
onde o mestre é o tempo."
Cora Coralina
"Os ritos são no tempo o mesmo que o domicílio é no espaço."
Antoine de Saint-Exupéry


"A celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário. Se uma vela acesa é símbolo de vida, uma vez apagada ela se torna símbolo de morte."
Rubem Alves
"Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos."
Millôr Fernandes



'O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família."
Mario Quintana
O Tempo

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."
Mario Quintana



"Não tenhamos pressa,
mas não percamos tempo."
José Saramago



"Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata."
Carlos Drummond de Andrade
   
"Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta."
Chico Xavier



"Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre."
Charles Chaplin




"Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito."
 Clarice Lispector

"Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar."
Carlos Drummond de Andrade


"Muita coisa que ontem parecia importante ou significativa amanhã virará pó no filtro da memória. Mas o sorriso (...) ah, esse resistirá a todas as ciladas do tempo."
Caio Fernando Abreu

"Não seja o de hoje.
Não suspires por ontens....
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo."
Cecília Meireles

"Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante."
Antoine de Saint-Exupéry

"Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho."
Mario Quintana

Tempo
"Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha."
Mario Quintana





Em tempo ainda, para parabenizar minha querida sogra Mirna!!! E também a Ana Rosa!!! Parabéns!!! Ofereço às duas o mesmo que Mateus me ofereceu hoje:

Mateus: "Fiz essa escada de  presente pra você."
Eu: "Obrigada. E pra onde leva essa escada?"
Mateus: "Para o mundo!"


Oração ao tempo (Maria Gadú)





Dia dos povos indígenas

O dia 19/4 já passou, já chegamos ao dia 21 (meu aniversário!), mas sinto que o dia continua sendo deles, os verdadeiros donos dessas terras!

Não só porque foram os primeiros a aqui chegar, mas principalmente porque souberam relacionar-se com a natureza, respeitando-a e tornando-se parte dela.

Hoje e sempre, desejo que a luta dos diversos povos indígenas, que também é minha, possa resultar em dias de mais respeito para suas histórias e culturas, para que continuemos a aprender com seres que vivem de maneira autêntica, guerreira e lúdica!

Segue um pequeno vídeo de muita brincadeira boa:




Este e outros vídeos, de brincadeiras indígenas e muitas outras tantas que encontram-se registradas no site do "Território do brincar": www.territoriodobrincar.com.br , resultado de muita pesquisa pelo país de Renata Meirelles e David Reeks, junto de seus filhos. Vale muito à pena conhecer esse projeto que prima pela qualidade da infância e pela valorização da cultura da criança.

Imagens que revelam

Quando Mateus nasceu foi aquele alvoroço em minha vida. Misto de sentimentos e encantamento por cada descoberta. A quantidade de fotos que tiramos dele, mesmo cuidando para não perder momentos de olho no olho e a vivência plena da experiência, foi enorme e revela o quanto o consumo é realmente uma marca forte de nossa contemporaneidade e temos de cuidar para que nossas relações não fiquem afetadas por ele.

Certa vez, Mateus tinha uns dois meses, uma tia foi conhecê-lo em minha casa. Conversamos bastante até que finalmente ele acordou, o que gerou em todas nós uma grande alegria. Após mamar Mateus ficou num bercinho à nossa vista quando então minha mãe pediu que eu compartilhasse as fotos e vídeos que andei produzindo com o pequeno. Nesse momento, percebi a incoerência em deixar de aproveitar a presença do pequeno acordado para buscar por suas imagens virtuais, e assim todos nós conseguimos não perder a chance de curtir a companhia deliciosa dele bebê.

Já quando minhas meninas nasceram vivemos uma situação oposta, pois conseguimos tirar poucas fotos das duas, o que, confesso, ao invés de me tranquilizar, me fez me sentir bastante culpada. Na véspera delas completarem um ano cheguei, inclusive, a encomendar uma sessão de fotos com minha amiga Renata como mencionei na postagem "Pausa para uma pose" como maneira de registrar aquele momento familiar importante.

Com o tempo, me aceitei cada vez mais como a 'melhor mãe possível para os meus filhos' e estudando sobre documentação pedagógica para meu trabalho na escola, consegui lidar de um jeito mais tranquilo e focado em relação às documentações de meus pequenos. Assim, tive certeza de que quantidade não é qualidade, que fotos posadas são bacanas como registros, mas bem mais bacanas mesmo são as que revelam pensamentos, sentimentos, descobertas, brincadeiras e saberes dos sujeitos. Aquelas imagens que contam histórias e criam outras interpretações, que suscitam reações aos que as veem, e que por estarem dentro de um contexto, podem ser planejadas - o que não significa ausência de surpresas no meio do caminho, mas presença de intenções desde a princípio, inclusive, a respeito de como compartilhá-las.

Ter um blog que expõe a mim e a minha família fez com que aumentasse a minha preocupação sobre todas essas questões. Para mim, a existência desse espaço de troca de reflexão se justifica pelas palavras de Bartolomeu Campos de Queirós:


“A beleza é aquilo que você não dá conta de ver sozinho. Ao ver algo bonito demais você logo quer dividir com o outro. A beleza é o que não cabe só em você, é aquela coisa que quando você sente, precisa dar pro outro. Você vê um pôr do sol bonito da janela, vê um quadro no museu, lê um livro e pensa: fulano precisava estar aqui, ou, eu tenho que ler isso pro meu filho. É extremamente triste estar sozinho quando se encontra a beleza.”
                                                          

Acredito que certamente por conta dessa concepção é que eu e Luiz andamos recebendo alguns elogios pelas imagens de nossos filhotes e pela maneira de compartilhá-las, sem exibi-los desnecessariamente e como nossos troféus. Nossos filhos são seres que merecem respeito aos seus processos únicos de aprendizagens, por isso mesmo interrompe-los a todo momento só para tirar uma foto posada não soa coerente. Isso sem falar de cuidarmos para não passarmos a mensagem aos nossos filhos de que absolutamente TUDO o que fazem merece um registro, e ainda por cima, compartilhado na rede. Quem me conhece bem sabe que nesse sentido tenho alma antiga, e por isso não acho que tudo que fazemos é importante para os outros - essa história de 'se sentindo...', 'partiu...'.

É verdade que em tempos atuais, em que nunca estivemos tão conectados ao mesmo tempo uns com os outros, o virtual pode tornar-se real, e vice-versa. Muitos são os exemplos (positivos e negativos) para essas situações. E estamos aprendendo a construir nossas relações nesse novo formato, em rede. É um momento que exige cuidado como, por exemplo, em relação à diferenciação de público e privado, e também é um momento potente, em que podemos nos beneficiar dessa rede ativa.

Como exemplo de aspectos positivos, entrei em contato com uma seleção de fotos intitulada: "32 fotos tiradas de crianças brincando ao redor do mundo" que achei sensacional: http://awebic.com/cultura/32-fotos-tiradas-na-hora-de-criancas-brincando-ao-redor-mundo-27-e-mais-divertida/ . Recomendo! São belas imagens de crianças totalmente mergulhadas em suas explorações e que nos abrem a porta da informação e da criação. Nesse sentido, outro exemplo de que esses novos tempos podem nos propiciar muita troca interessante foi a possibilidade de ver essas fotos junto a Mateus.

Achei interessante que durante essa vivência, em momento algum ele mostrou surpresa quanto às diferenças de cores, roupas das crianças das imagens. Seus comentários revelaram desejo de brincar da mesma coisa e estar no mesmo lugar. Vi que um mundo se abriu para ele! Quando ele viu que tinham crianças da África, sua primeira surpresa: "Mas cadê os bichos?", e ao saber que também existem pessoas ele mal acreditou que neste lugar que já há tempos desejava conhecer por conta dos animais também tem crianças - que jogam futebol, outra de sua paixão! Outra surpresa, ver que em lugares distantes (informação dada por mim e não necessariamente entendida plenamente por ele) as crianças brincam das mesmas coisas que ele: jogar bola, pular corda, na água, no mato, com os bichos, fazendo pinturas no corpo. Uma beleza só poder viver com ele essa possibilidade de ver o mundo desse jeito: tão diverso e tão integrado! É o que todos nós, cada vez mais, precisamos aprender para vivermos numa democracia com ética e estética.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Para viver sem medo... Homenagem a Eduardo Galeano

Mais uma perda humana irreparável: a morte de Eduardo Galeano. Siga em paz...

Céu em festa e nós por aqui continuando a enfrentar nossos medos em busca de nossas utopias. Ainda bem que suas palavras podem continuar a nos confortar, provocar e inspirar!

Numa brincadeira - como fiz em minhas homenagens aos também saudosos Manoel de Barros e Rubem Alves - seguem trechos das reflexões de Galeano junto a imagens de meus pequenos:


"O medo ameaça: se você ama, terá Aids; se fuma, terá câncer; se respira, terá poluição; se bebe, sofrerá acidentes; se come, terá colesterol; se fala, terá desemprego; se caminha, terá violência; se pensa, terá angustia; se duvida, terá loucura; se sente, terá solidão.




Para ter fôlego, é preciso ter desalento. Para levantar tem que saber cair. Para ganhar tem que saber perder. Temos que saber que assim é a vida e que você cai e levanta muitas vezes. (...)




Acho que o exercício da solidariedade, quando se pratica de verdade, no dia-a-dia, é também um exercício de humildade, que ensina a se reconhecer nos outros a grandeza escondida nas coisas pequenininhas. O que implica denunciar a falsa grandeza nas coisas grandinhas, em um mundo que confunde grandeza com grandinho.





(...) Ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado: as pequenas, as minúsculas coisas de gente anônima, de gente que os intelectuais costumam desprezar. Esse micro-mundo onde eu acredito que se alimenta de verdade a grandeza do universo. Ao mesmo tempo que sejamos capazes de contemplar o universo, através do buraco da fechadura — ou seja, a partir das pequenas coisas é possível olhar os grandes mistérios da vida. O mistério da dor humana, mas também o mistério da persistência humana, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que seja a casa de todos e não a casa de poucos – e o inferno da maioria.





A capacidade de beleza, a capacidade de formosura das pessoas mais simples, às vezes mais singelas, tem uma insólita capacidade de formosura, que às vezes se manifesta em uma canção, em um grafite, numa conversa qualquer — esta que praticam as crianças. Acontece que depois nós, os adultos, nos ocupamos em transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida delas. Mas, temos que ver o que é uma criança, não? São todos pagãs.





Faz pouco tempo, sofri uma tragédia, morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro companheiro de passeio, que me acompanhava também escrevendo, porque quando eu perdia a mão e já levava 18 horas escrevendo, sua pata me dizia: “vamos, a vida não termina aqui, nos livros, vem, vamos passear juntos”. Aí íamos os dois. Porém, ele morreu. Com isso eu andava com uma música muito ruim na alma. Falando em perdas, realmente, a perda do Morgan foi muito forte para mim. Me arrancou um pedaço do peito. Bem, estava assim, muito triste e saí a caminhar pelo bairro. Era cedo, manhãzinha, não consegui dormir, me vesti e fui caminhar. Cruzei com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos, que vinha brincando no sentido contrário. Ela vinha cumprimentando a grama, as plantinhas, “boa dia graminha”, dizia ela. Ou seja, nessa idade, somos todos pagãos, e nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma.





Fazíamos a pergunta todos os dias: “para que servia a utopia? Se é que a utopia servia para alguma coisa…” Então disse: “veja bem, a utopia está no horizonte e se está no horizonte, nunca vamos alcançá-la. Porque se caminho dez passos, a utopia vai se distanciar dez passos e se caminho vinte passos, a utopia vai se colocar vinte passos mais além. Ou seja, sei que jamais vou alcançá-la. Então para que serve? Para isso, para caminhar. (...)






Na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na Terra se perdia, ia parar na Lua. Sonhos perigosos, promessas traídas, esperanças estilhaçadas, Se não estão na Lua, onde estão? Será que na Terra não se perderam? Será que na Terra se esconderam e estão esperando por nós?




Dizem que o mundo é feito de átomos. Está bem. “O mundo não é feito de átomos, o mundo é feito de histórias”, disse uma amiga. Eu acredito que sim, o mundo deve ser feito de histórias, porque são as histórias que a gente conta e escuta, recria e multiplica. São as histórias que permitem transformar o passado em presente, e também permitem transformar o distante em próximo. O que está distante em algo próximo, possível e visível.



 


O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria, entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos, fogos de todas as cores. Existem pessoas de fogo sereno, que nem ficam sabendo do vento, e há pessoas de fogo louco, que enche e arde faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros… outros ardem a vida com tanta vontade, que não pode olhá-los sem pestanejar. Quem se aproxima, se incendeia."




(EDUARDO GALEANO, segue vídeo na íntegra abaixo...)





Seguindo essa linha de brincadeira de relacionar suas palavras com imagens, sugiro um link que expôs a mesma proposta: as reflexões de Eduardo Galeano com as obras do artista Marc Chagall. Vale à pena! http://www.contioutra.com/alem-convencional-textos-de-eduardo-galeano-e-obras-de-marc-chagall/ Por Josie Conti no site 'Conti outra'.

Por fim, também sugiro a leitura de um texto de Maria Helena Masquetti "Fim da publicidade infantil, começo de um mundo melhor", republicado no site do Instituto Alana, em homenagem a Galeano: http://criancaeconsumo.org.br/noticias/fim-da-publicidade-infantil-comeco-de-um-mundo-melhor/

Pietra: seja bem vinda!!!

"Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância." (Mario Quintana)


Nasceu mais uma flor para enfeitar esse mundo: a Pietra, filha do Diego e da Juliana, neta da Carmem e do Mauro, sobrinha do Thiago e bisneta de Dona Maria Ignes, todos muito queridos de minha família, desde a infância de minha mãe passando pela minha e de meus irmãos até hoje, mesmo de longe.

Essa família afetuosa é merecedora de grandes alegrias e certamente saberá aproveitar intensamente a chegada de mais um ser... Parabéns a todos! Que essa pequena lhes traga ainda mais felicidade. estamos muito felizes por vocês.

 
"Saber encontrar a alegria na alegria dos outros, é o segredo da felicidade." (Georges Bernanos)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Meninas e seus corpos... livres!

Cá estou, numa tarde em que deveria trabalhar em casa, mas não consegui. Porque hoje ganhei uma companheira: Bebel que está "de molho". Brincamos, brincamos e brincamos, que delícia de menina!

Depois, fiquei um tempão tentando ajuda-la a adormecer, minha menina que assim como Mateus adora um chamego em meus cabelos, para que ela descansasse e eu pudesse fazer minhas coisas (rs). Mas como sempre, desde que meus filhos eram bebezinhos, assim que eles dormem, ao invés de eu me libertar, como gostaria e precisaria, me vejo presa à cena desses seres dormindo, entregues, plenos.

  

 

"Do lugar onde estou já fui embora."
(Manoel de Barros)


São em momentos como esse, ao ver meus pequenos longe de seus corpos, envoltos por lembranças e sonhos, vivendo a plenitude do momento que também consigo me ver longe de mim, preenchida por meus pensamentos, sentimentos, memórias e desejos num verdadeiro encontro comigo mesma, revendo minhas escolhas e tudo que vivi até agora para presenciar essa cena tão sublime.

  

Dizem que tudo o que buscamos, também nos busca e, se ficarmos quietos, o que buscamos nos encontrará.
Há algo que leva muito tempo esperando por nós. Enquanto não chega, nada faça. Descanse. Você verá o que acontece enquanto isto.
Desejo que hoje você experimente paz dentro de si, que confie que você se encontra exatamente onde deve estar, que não se esqueça das possibilidades infinitas que nascem da confiança em si mesma e nos outros, que utilize os dons que recebeu, e que
transmita, aos outros, o amor que lhe foi dado.
Desejo que você esteja feliz consigo mesma pelo que você é. Deixe esta sabedoria assentar-se em seus ossos e deixe que sua alma cante, baile e ame livremente. Está aí para cada uma de nós.

E dance...
Sobretudo, dance...

Clarice Pinkola Estès. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999.


Talvez por isso, paradoxalmente, é quando me encontro desse jeito, longe de mim, que mais perto estou de mim mesma, pois tudo me faz sentido, mesmo as vivências sendo experimentadas por meio de muitas contradições: sou forte e sou frágil, sou pequena e sou grande, sou confiante e sou medrosa, sou certeza e sou dúvidas, sou poderosa e sou incompleta, sou grata e sou 'quero mais', sou tranquila e sou pilhada, sou única e sou igual, sou a mesma e sou diferente, sou uma e sou muitas. Em meio a meus devaneios começou a passar na televisão (tem no 'youtube' também) "Eu Maior", o qual toda vez que assisto eu reparo em alguma coisa nova. Dessa vez, olhando a TV e minha Bebel, a fala de Vanete me chamou a atenção:




Além de toda pertinência, força e beleza do que Vanete fala, me lembrei agora, vendo minha menina dormir, de quando fomos a uma consulta médica de rotina e Bebel fez o maior chororô do mundo para a médica não examiná-la.

Isabel é um dengo só, quando quer, porque quando precisa ou deseja ela mostra  toda sua obstinação. Confesso que por mais que eu fique incomodada com esse seu jeitão (às vezes chega a me enfrentar, quando coloco limites), no fundo, fico admirada por sua determinação em marcar seus desejos. No episódio da consulta, não tendo, aos nossos olhos, a necessidade de uma colocação tão firme fomos a ajudando a relaxar, o que não aconteceu, e a muito custo ela deixou ser examinada em meus braços. Depois, em casa, conversamos a respeito quando lhe perguntei: "Isabel, porque você não deixou a médica te examinar?", e ela me respondeu:

"Eu não gostei que ela mexeu no meu corpo!"

Um minuto de choque. Essa pequena já tem toda essa noção sobre o próprio corpo???


Senti um misto de coisas... Tanto de preocupação pelo que ela poderia perder na vida ao se fechar a novos contatos (físicos, espirituais...) como senti também muito (mas muito mesmo!!!) orgulho por ela já saber que somos donas de nossos corpos como também de nossos desejos, caminhos, escolhas!

Nosso corpo é um lugar, porque damos valor a ele. Nosso lugar sagrado onde nos encontramos, nos reconhecemos por onde também os outros nos conhecem. Mais que isso, é o lugar onde moram os muitos de nós e os outros que nos habitam também. Por meio de nossos corpos também estabelecemos relações, afetamos, somos afetados. Pensamos, sentimos, desejamos, a nós mesmos e aos outros. Ele diz sobre a gente, fala pela gente, se expressa, ou o contrário, nos esconde (ou seria ainda, os escondemos?). De todo modo, marca nosso lugar no mundo, ou melhor, nossos lugares, já que são muitos, somos muitos. Nossos corpos que controlamos não completamente, porque eles também somos movidos por eles. Nosso corpo que carrega nossas marcas, nossas transformações, o ciclo da vida. Nossos corpos vivos, brincantes! E quando não, morremos também. Ou renascemos.


"O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa."
(Eduardo Galeano)


Aceitarmos e gostarmos de nosso corpo diz muito do tipo de pessoa que somos ou queremos nos tornar, uma escolha que nós fazemos, sempre permeada pelo nosso contexto histórico, por isso é tão sério como as sociedades se configuraram no sentido do exercício da tolerância, da igualdade de direitos e reconhecimento das diferenças entre seus indivíduos. Ainda em nosso tempo contemporâneo, portanto, ser e sentir-se dono do próprio corpo é uma atitude extremamente revolucionária. É tomar consciência de tudo que fomos, somos e podemos vir a ser como indivíduos, agrupamentos e espécie.

Nossos corpos que carregam semelhanças, singularidades e outramentos. Que carregam histórias, muitas histórias, nossa ancestralidade, nossa conexão com a natureza, com nossos lados primitivos, selvagens e com o sistema, do qual somos parte tanto quanto outros corpos são.

No caso da luta das mulheres, essa tomada de consciência tem muita importância. Certamente, por exemplo, Isabel, tendo essa percepção incipiente poderá vir a fazer escolhas, hoje e no futuro, mais coerentes com seu jeito e suas crenças! Hoje, por exemplo, vestir em seu corpo o uniforme junto com os irmãos mesmo sabendo que não ia à escola e passar a tarde fazendo carinho nele diz muito sobre o que esta sentindo e querendo marcar.  (aqui me lembrei de um texto de um pai a uma filha que já recomendei por aqui: http://www.pedrinhofonseca.com/doseupai/2015/2/20/irene).

Minha menina já saber disso aos 2 anos e 3 meses - não à toa ela, que é toda dançarina e escaladora de árvores, cheia de movimentos delicados e precisos, apaixonada por saias e rodopios e desafios - me encheu de ânimo para acreditar que ainda em meio a tantos desafios que ainda vivenciamos, já caminhamos muito como humanidade e por isso temos que comemorar! Afinal, essa conquista de percepção sobre si e/com o outro, neste tempo e espaço, não é só dela, é de todos e todas nós, das muitas 'velhas' em que estamos montadas.


“As modernas contadoras de histórias descendem de uma comunidade imensa e antiquíssima composta de santos, trovadores, bardos, griots, cantadoras, chantres, menestréis, vagabundos, megeras e loucos. Uma vez sonhei que estava contando histórias e sentia alguém dando tapinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha que segurava meus tornozelos e sorria para mim. "Não, não" disse-lhe eu. "Venha subir nos meus ombros, já que a senhora é velha e eu sou nova." "Nada disso" insistiu ela. "É assim que deve ser." 

Percebi que ela também estava em pé nos ombros de uma mulher ainda mais velha do que ela, que estava nos ombros de uma mulher usando manto, que estava nos ombros de outra criatura, que estava nos ombros...                                  

Acreditei no que disse a velha do sonho a respeito de como as coisas devem ser. A energia para contar histórias vem daquelas que já se foram. Contar ou ouvir histórias deriva sua energia de uma altíssima coluna de seres humanos interligados através do tempo e do espaço, sofisticadamente trajados com farrapos, mantos ou com a nudez da sua época, e repletos a ponto de transbordarem de vida ainda sendo vivida. Se existe uma única fonte das histórias e um espírito das histórias, ela está nessa longa corrente de seres humanos."

(Clarice Pinkola Estès, "Mulheres que correm com os lobos")


Porque, afinal, temos muitas histórias para contar às novas gerações, muito a ensinar do que aprendemos com nossas vivências...

Essas notícias, que pelas forças do universo vieram ao meu encontro hoje, são exemplos disso: "A foto de uma mãe com biquíni inspira outras mulheres a exibirem seus corpos com orgulho" ( http://www.brasilpost.com.br/2015/04/04/mulher-aceitar-proprio-co_n_6999872.html) e "Como vivem as mulheres no país mais igualitário do mundo" (http://blogs.iadb.org/ideacao/2015/03/09/como-vivem-mulheres-pais-mais-igualitario-mundo/).

Do mesmo modo as novas gerações têm muito a nos ensinar sobre vivermos a vida de maneira inteira! Ainda mais as crianças, esses seres que tão bem usam e exploram todas as potencialidades de seus corpos, que se entregam às experiências de sentidos, que mergulham com inteireza na vida... com seus corpos. Que continuem assim... livres!