sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Festa no céu! Homenagem a Manoel de Barros

Neste momento está acontecendo a maior feira literária brasileira - lá no céu!!!

Só neste ano nos despedimos de Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves, dentre outros, e agora, Manoel de Barros. Salve, salve todos eles. Tremendos escritores, tremendos seres humanos. Ainda bem que continuamos com suas palavras ecoando em nossos corações...

Por falar em palavras trago agora as dele...

O apanhador de desperdícios - Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


E faço das palavras dele, as minhas também. Este poema é tão eu, tão meu...

Meu poeta que me inspira e tem como fonte a própria infância. Como não ser sábio alguém que tenta voltar a enxergar com seus olhos de menino? Isso sem forçar a barra, sem ser leviano nem infantilizado. Mas em busca de dar maior sentido para tudo que foi vivido e, a cada encontro com a criança que foi, se maravilha com a potência da cultura da infância, com tudo que podia e só em parte sabia. Nessa reflexão de suas memórias, percebe que tanta potência acaba por dar outra dimensão ao seu momento atual. Como ele mesmo disse: "Tenho candor por bobagens. Quando eu crescer eu vou ficar criança. " Por isso sua simplicidade, profundidade e veracidade - que me alimentam.

"Voou demoradamente, de leve, asa por asa,
ao encontro do versos que ainda não escreveu."

(Cristina Ávila)


Seguem mais palavras de Manoel de Barros numa brincadeira de juntar com algumas imagens de meus filhotes tal como fiz em minha homenagem a Rubem Alves:
 
 
"Sou hoje um caçador de achadouros da infância.
Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos."
 
  
 
"Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais."
  
 
 
"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei."
 


"É no ínfimo que eu vejo a exuberância."
 
 
 

"Natureza é uma força que inunda como os desertos."
 
 


"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."
 
 

"Liberdade busca jeito. Sou água que corre entre pedras. Quem anda no trilho é trem de ferro."
 
 
 
 
 
 "Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo da estrada. Gosto do desvio e do desver."
 
 

"Poesia é voar fora da asa."

  
  
"Desfazer o normal,
há de ser uma norma."
 
 

"Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'."




"Tem mais presença em mim o que me falta."
 
 


"...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."



"Gosto de pensar que precisamos criar mais palavras do bem
As atuais estão em desuso, e já que tudo é moda...
Queria poder usar o vocabulário dos bebês
Não tem nada mais original
Não tem verbo, nem substantivo
Mas tem sentimento, tem vontade, tem verdade..."



"A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,as-frases-e-os-poemas-mais-marcantes-de-manoel-de-barros,1592206
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"As coisas que não existem são as mais bonitas."



"A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos."
 
 


"Você vai encher o mundo com suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos."

  

"Não preciso do fim para chegar."
 
 
 
"No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal :
Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro."


 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Quatro olhos



 

Por um tempo desejei ter quatro olhos...

Saber que eu tinha dois pares de olhos me fitando profundamente sem poder retribuir à altura – com um olhar profundo, penetrante, num tempo a perder de vista me causava uma aflição sem fim. Olhava pra uma, depois pra outra, pra outra, depois pra uma. Medo dessa divisão não ser suficiente, de não conseguir estar inteira com cada uma, de nossa relação ser sempre com base na falta.

No dia a dia, nesses encontros e desencontros, nós 3 fomos nos conhecendo, nos afinando, construindo nossas maneiras de interagir, dentro das possibilidades. Nesse processo, fui me deslumbrando com minhas meninas, com as duas e com cada uma em principalmente como havia de naturalidade e generosidade por parte delas para com a mãe que desejava se multiplicar, mas não podia. Não pelo menos naquele início de construção e de afirmação.

Outro maravilhamento me aconteceu à medida em que, com muito empenho, consegui também ser mais generosa comigo mesma, nos momentos necessários de escolha “para quem olhar”, e a agir com naturalidade diante desse meu contexto familiar repleto de afeto.

Assim, fui percebendo que posso sim me multiplicar, tendo até mesmo seis olhos! É uma questão de estar em sintonia com meus pequenos, de estar focada no que é essencial, e tomar decisões. Essa parte, em nada uma tarefa fácil, contudo, tomar consciência de que as escolhas podem me favorecer ao invés de me limitar foi para mim uma mudança de paradigma interna.
 

“o professor é a pessoa; que a pessoa é o professor; que é impossível separar as dimensões pessoais e profissionais; que ensinamos aquilo que somos e que, naquilo que somos, se encontra muito daquilo que ensinamos. Dessa forma, discute-se a importância de os professores se prepararem para um trabalho sobre si próprios, para um trabalho de auto-reflexão e de auto-análise.” (Antonio Nóvoa)
 


Iniciar, neste ano, o desafio como orientadora me fez relembrar esse meu desejo de outrora, uma vez que recebi 288 olhinhos de uma vez só... Sem mencionar os olhos das professoras, dos pais... Tamanha emoção e orgulho em ter sido para eles uma espécie de anfitriã a um novo ambiente, a um mundo de novas possibilidades, em suas potencialidades ainda mais potentes. Da mesma maneira eles também foram anfitriões para mim, nessa nova função em que muitas vezes só é possível ver por meio dos olhos dos outros nesse processo de outramento.

As transformações em nós mesmos são do tipo “caminho sem volta”. Portanto, sabia da possibilidade de eu me multiplicar. Por outro lado, também fui multiplicando meus olhares, podendo reconhecer que fazer escolhas de olho no olho, do mesmo modo, é essencial, principalmente quando tomo dimensão do desafio da escolha – tenho refletido e vivido intensamente que ao invés dela nos aprisionar ela pode nos libertar, vide nossa recente vivência de eleição para presidente. Nesse sentido, poderia ter apenas um olho só ou mesmo nenhum, desde que eu continue encharcada no desejo de ver além do que vejo, ou melhor, de sentir além dos meus sentidos, no campo de experimentação – meu, do outro, nosso.

Uma conexão que exige de nós presença e seriedade para a tomada das decisões nesse nosso papel de escola que tem o compromisso de possibilitar que cada um dos seres que compõem a escola, inclusive nós mesmos, por meio de um contexto coletivo de trocas de olhares, saiamos diferentes das experiências. Tomando consciência de nossos erros, acertos, medos, alegrias, semelhanças e diferenças, com uma visão mais ampla de cada um de nós, do outro, da gente junto, da gente se reconhecendo, se pertencendo, nesse mundo tão grande, diverso, que pode ser olhado e sentido de diversas maneiras, e que precisa estar dentro da escola assim como a escola como parte desse mundo.  Mundo maior.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

12 anos de amor e luta

Ontem (já passou da meia noite) fez 12 anos que eu e Luiz começamos nossa história juntos...

Foi na Av. Paulista, em meio à comemoração da primeira vitória do Lula para presidente, "a esperança venceu  medo" era o que mais falávamos, cantávamos, sonhávamos, e nesse clima de festa demos nosso primeiro beijo. O primeiro de muitos. Uma história de amor que nasceu em meio a um desejo de boa parte da população de fazer diferente, de mudar a história do país de desigualdades, de opressão... Assim, uma história de amor e luta. Hoje, se pudesse voltar no tempo faria tudo igual.

Desde então muita coisa aconteceu...

Eu e Luiz começamos um namoro de muitas histórias, risos, choros, beijos e abraços... Já não somos mais jovens, temos nossos cabelos brancos (quer dizer, Luiz já tinha alguns fios quando o conheci...rs), alguns de nossos sonhos se concretizaram, outros mataram, outros nós fizemos acontecer e ainda outros foram substituídos com a maturidade... Isso sem falar nas boas surpresas da vida: ganhamos 3 filhotes lindos, nossos maiores presentes divinos!!! Todo meu amor ao meu companheiro de vida, e à família que construímos.

Com o governo do Lula, muitas alegrias, infelizmente, na mesma proporção também decepções. Ver o partido que tanto se diferenciava da direita atuar com o mesmo tipo de política que criticávamos foi um golpe duro, mas não fatal.

Mas minha decisão é de ficar bem. Nas vezes em que ainda não estou, certamente estou em busca. Essa é a minha maior vocação: ser feliz.

Assim, em meio a um processo que já havia iniciado faz tempo (falei disso numa postagem intitulada "Totalmente à deriva", sobre minha história e convicções políticas), nessa última eleição, finalmente, me redescobri. Redescobri minhas forças e minha forte escolha pela esquerda - sem me ater ao PT, o que me foi uma libertação. Poder compartilhar com pessoas de outros partidos como o PSOL, o PV ou livres, de posicionamentos semelhantes aos meus, ponderado, mas sem ficar em cima do muro, analisando a situação como um todo e em suas partes com olhos de amor para com o outro, mesmo que diferente de realidade, para com nós mesmos, nossas história, nosso futuro, foi essencial.

Reconhecer que "ainda estamos longe da utopia, mas já estivemos muito mais" foi também importante. É verdade, o atual tem muitos problemas, sou uma crítica do mesmo, mas as coisas estão avançando. Somos uma democracia recente, temos muito o que aprender, fomos colonizados por muito tempo (tem gente que pensa com cabeça colonizada até hoje - a história das mentalidades é a mais lenta de todas). Temos uma corrupção que impera desde quando os portugueses aqui chegaram - sim, triste ver a esquerda envolvida nesses esquemas, mas mais triste é o pessoal achar que o PSDB seria a solução quando é um partido mergulhado na lama - escondida debaixo do tapete. Não interessa à grande mídia desmascará-los, ao contrário do PT, quando inclusive denunciam sem ter provas. Uma vez tendo provas sou  a primeira a exigir punição dos envolvidos seja de que lado for.

Assim, mesmo com críticas ao atual governo votei para a reeleição de Dilma Roussef, para que um projeto de esquerda continuasse dando andamento a uma política comprometida com um modelo de sociedade mais justa.

Perceber que não devo votar de corpo fechado com ninguém, mas com coração aberto para que os avanços venham, e se não vierem, cabe o meu posicionamento além da revisão de minhas ações cotidianas - preciso fazer o mesmo que cobro dos governantes, certo? Afinal, a vida em comunidade só pode mesmo dar certo com o comprometimento de todos. Até mesmo a oposição precisa estar comprometida com algo maior, um princípio, senão não pode dar certo, é apenas sede de poder.

Livrar-me dessa pequena visão de mundo entre petistas e antipetistas me fez um bem danado, me ampliou, e de certa forma também me protegeu a não entrar numa guerra, principalmente em tempos de facebook, com as pessoas ao me redor. De todo modo também fui atingida, porque impossível ficar indiferente em meio a tanta manifestação de ódio. Impossível ficar à deriva, neste caso.

Muita gente se esqueceu o quão sacrificante nos foi poder viver numa democracia em que cada um vota em quem quiser sem precisar atacar o diferente. Não sabem que a diferença nos engrandece e nos qualifica como uma espécie diferenciada. Grande exercício esse de tolerância. Como cidadã, educadora e mãe não prego e não vivo o discurso do ódio.

Muitas pessoas falaram abertamente sobre uso de porradas para lidar com o diferente, não conseguindo dialogar ideias sem entrar em rotulações que nos afastam ao invés de nos agregar. Debate que não amplia, só paralisa. Outras, defenderam a divisão do país entendendo alguns povos como superiores a outros, como se tivesse um "voto certo" ou como já não houvesse muros invisíveis entre nós, os quais justamente tanta gente luta para acabar. Pena que tem gente que quer concretizá-lo, com ofensas preconceituosas aos nordestinos, justo eles que construíram cidades como São Paulo e que de uns tempos para cá vem conseguindo voltar (porque desejam e prosperaram) a suas cidades natais. Diga-se de passagem, o sul e o sudeste tiveram mais votos a Dilma do que eles (claro que em São Paulo não, uma cidade que prefere ficar sem água a ficar sem carro, como aponta a reeleição para governador em primeiro turno de Geraldo Alckmin e alto índice de rejeição a Haddad, meu prefeito com orgulho).

Isso sem falar em ofensas às camadas mais pobres, chamando-os de vagabundos, como se fosse uma questão de desejo não querer progredir. Tem gente preguiçosa tem, como em todo lugar, mas a imensa maioria não consegue viver de outra forma - é uma miséria terrível. E tem gente que não quer se misturar, que fica inconformado com "aeroporto que ficou com cara de rodoviária". Herança de nossa colonização. Gente que ataca pobre mesmo tendo vindo da mesma origem na lógica de que "eu ralei, ninguém me ajudou, o mundo não foi justo comigo agora não quero que seja com ninguém". Isso se chama ranço, e precisa ser trabalhado... em terapia. Em política pública, séria e comprometida, a lógica tem de ser o contrário "não quero que passem o que eu passei, ou imagina como teria sido a minha vida se tivessem me aberto portas com gentileza". Certamente seríamos todos mais tolerantes, mais amados, com certeza. De todo modo, a discussão sobre as bolsas e tudo mais, é válida, eu mesma tenho muitas ressalvas, gostaria que estivessem associadas a programas de capacitação, por exemplo, contudo, o mais importante para mim por hora é que tomar a posição de ficar indiferente a uma boa parcela da população marginalizada, como se ela merecesse, ou mesmo deixar de reconhecer as revoluções que aconteceram nas vidas de muita gente graças a essa abertura, é inaceitável. Infelizmente as coisas demoram a se transformar verdadeiramente nas estruturas, quiçá chegue um dia em que essa prática não será mais necessária...

"Democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida". Mario Quintana

Também me chama a atenção a reação de muitas pessoas com uma postura de inconformismo em relação à votação pedindo sua anulação, como se fossem torcidas organizadas de times que não podem conversar, trocar de jeito nenhum, isso porque até mesmo dentro de um campeonato esportivo existem limites, ou pelo menos deveriam existir, e querem assim fazer uma "quebra, quebra geral" para anular o campeonato só porque não sabem perder. Veja bem, não votei no Alckmin e mesmo assim não torço para não chover, pelo contrário (ainda que eu saiba que mesmo que chover a crise hídrica em SP continuará, é uma questão de política). Do mesmo modo fiquei inconformada quando pessoas torceram para o Brasil perder a Copa só para o PT se prejudicar... Valeu à pena, minha gente deixar de torcer com emoção pela seleção?

Sinceramente, eu não queria que Aécio fosse meu presidente, por uma série de razões como, por exemplo, o fato dele já ter agredido uma namorada e ser a favor da redução da maioria penal, mas se fosse a vontade da maioria teria que engolir e fazer uma oposição construtiva, porque faz parte da democracia ter esses dois lados, é saudável, desde que se jogue limpo e com respeito. Seria voz em defesa das mulheres e da infância como vou ser sempre. O próprio Aécio, dignamente, cumprimentou a presidente e se comprometeu a fazer uma oposição construtiva. Esse é o jogo, e ele sabe disso. Já fui muito tempo oposição, já cometi meus erros e fiz minhas aprendizagens, espero que as pessoas façam as delas, pois esse clima de "vamos lá fazer valer a posição ou a oposição pelo bem comum" não estou vendo entre as pessoas no facebook ou mesmo entre as crianças, contaminadas, quando chegaram à escola na segunda-feira em clima de final de Copa do Mundo. O que estamos ensinando a elas? Que podemos chamar nossa autoridade máxima de diaba, vagabunda, é isso mesmo? Depois querer que as crianças respeitem as mulheres, os adultos, os pais, os professores fica difícil... Que não vale à pena votar e respeitar a decisão da maioria? Pois o sistema contrário é bem sabido, é a ditadura, e uma basta na história desse país, não é mesmo? Que o diferente está errado a priori, que posso fazer generalizações grosseiras e desrespeitosas??? É tudo isso mesmo que queremos ensinar, pois é o que as crianças estão entendendo... Eu não quero formar outra geração do medo, da intolerância, do machismo, homofobia e preconceituosa. Chega, né gente? Somos prova viva de que esse não é o caminho. A gente já sofreu muito nessa vida por as coisas funcionarem desse jeito... Queremos vivências mais plenas para nossos pequenos e pequenas... Eles merecem, nós merecemos, e o mundo agradece!

Algumas pessoas da esquerda entraram nas provocações e destruíram uma editora de revista (vergonha alheia), e fizeram generalizações, de um jeito preconceituoso também. Dessa forma, me envergonham, afinal, conheço muita gente bacana, com seus motivos justos, que votaram no Aécio ou votaram nulo. E respeito. Hoje, mais do que nunca. Além disso, foi a votação mais acirrada da história, será preciso considerar isso. A mensagem de insatisfação foi dada e por isso o novo governo tem essa missão pela frente, de agregar ao invés de separar, o que não significa uma homogeneidade de pensamento, de posições, de crenças, uma vez que não estamos numa ditadura - vide tudo que falamos abertamente nesse processo. Mas justamente na diferença podemos vir a nos encontrar de um jeito mais potente. Encontro entre diferentes. É possível? Sim, eu acredito que sim. Essa é minha utopia.

Ao final desta eleição, essa maré de ódio, um ódio desmedido, manipulado por uma mídia com notícias manipuladas por seus opressores me deixou em sinal de alerta, de que temos de nos cuidar para o risco que corremos quando nos tratamos dessa maneira. Segue uma coluna primorosa de ontem, de alguém que sofreu na pele essa maré do ódio, de Gregorio Duvivier, "Perdemos", na qual ele fala das perdas que tivemos nesse processo ao interagirmos por meio desse ódio. Vale de aprendizado! Caso contrário, vamos perder ainda muito mais...

 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/192719-perdemos.shtml

Também uma eleição marcada, para mim,  de minha libertação. E que venha a reforma política prometida pela presidente para nos libertar ainda mais de amarras em nossas estruturas falidas. E se não vier vou cobrar, porque me sinto realmente livre para apoiar e criticar, às vezes até uma mesma pessoa, um mesmo partido, um mesmo projeto, por que não? Acima de tudo me sigo por um projeto de amor, de bem comum, de respeito e tolerância. Essa é a minha escolha, sempre.

Na hora do resultado fui tomada por uma emoção que há tempos não sentia na política. Votar numa mulher que lutou contra a ditadura, foi torturada, mas se manteve em pé, e que agora tem essa missão de construir novos paradigmas numa sociedade que quer mudanças foi emocionante. Poder comemorar essa vitória junto do Lu foi também especial. 12 anos juntos. Somos tão diferentes hoje em dia, mas também tão iguais. Um novo ciclo recomeça. Algo morto em mim, em nós, renasce, do mesmo e de um outro jeito. É muito amor.

Por falar em amor, um beijo grande para o meu. Que a gente continue sempre junto nessa luta. Amo. E que fique nosso exemplo: é possível amar em tempo de eleição!!!



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Conexões

Quero relatar duas situações que vivi num mesmo dia.

Pela manhã, fui conhecer um terreiro de umbanda que uma amiga frequenta. Foi uma experiência muito especial: o lugar, o dia lindo, o canto, a dança, a energia, o acolhimento, as palavras, a história. Me senti muito bem, precisava mesmo desse momento para recarregar a energia, para cuidar de minha espiritualidade, de minha fé. Minha fé que é minha religião, minha libertação, minha guia e que por isso a vivencio por meio de muitas religiões ou mesmo na ausência de alguma.

Me senti viva e muito conectada comigo, com as pessoas que estavam lá e até mesmo com as que não estavam, com a natureza, o universo, Deus. Alegria por existir, por experimentar momentos intensos e poder compartilhar com muitas pessoas numa verdadeira rede.

À tarde, entrei em contato com uma amiga querida para parabeniza-la por seu aniversário. Confesso que estava animada em vê-la pessoalmente, mas eis que descubro que por eu estar temporariamente desconectada da rede de whatsapp não fiquei sabendo que a comemoração havia sido no dia anterior. Fiquei arrasada.

Me senti morta, sem exagero algum. É como se eu não existisse por não fazer parte dessa rede virtual, e cheguei a ter um momento fúnebre ao imaginar que poderia mesmo ter morrido sem ninguém ter notado até que alguém finalmente postasse minha morte quando esta receberia algumas curtidas e um ou outro comentário lastimando minha ausência. Triste por não existir, por deixar de aproveitar momentos especiais com pessoas queridas.

Dois momentos que falam muito da nossa realidade contemporânea, e principalmente, de nossas escolhas. Eu, por exemplo, escolho viver situações reais com gente real numa vida real. Claro que já passei da fase da rebeldia (rs) e hoje, sei que a vida real também engloba a virtual, e desta relação, podemos tirar proveito quando tomamos alguns cuidados importantes. O maior deles é que seja num encontro pessoal ou num virtual é essencial estarmos PRESENTES para nos CONECTARMOS de fato, uns com os outros.

Conectar-se aos demais não é tarefa fácil. Mas quem está falando de vida fácil? Eu não. Estou de vida vivida, que só faz sentido em comunhão com os outros. Gosto dos momentos de solidão, mas gosto ainda mais quando experimento momentos de conexão com meus pares. Justamente por todos os desafios envolvidos, quando isso ocorre, sinto que me encontro não apenas à pessoa, ou pessoas em questão, mas à minha história, minha ancestralidade, minha/nossa humanidade, e com o universo. Afinal, é uma alegria sem igual poder compartilhar experiências, lembrar e ser lembrado, viver junto, em comunhão na diversidade, e claro, ensinar à nova geração que tudo isso é possível sim, basta disposição.


“A beleza é aquilo que você não dá conta de ver sozinho. Ao ver algo bonito demais você logo quer dividir com o outro. A beleza é o que não cabe só em você, é aquela coisa que quando você sente, precisa dar pro outro. Você vê um pôr do sol bonito da janela, vê um quadro no museu, lê um livro e pensa: fulano precisava estar aqui, ou, eu tenho que ler isso pro meu filho. É extremamente triste estar sozinho quando se encontra a beleza.”  (Bartolomeu Campos de Queirós, conferência durante o Simpósio do Livro Infantil e Juvenil, Colômbia-Brasil, Bogotá, 7-9/10/2007)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dia dos professores 2014!!!

"Mãe, por que o dia dos professores é pertinho do dia das crianças?" Mateus


Nunca conheci alguém que escolheu ser professor para ficar rico. Ainda que seja importante seguirmos em busca por melhores condições de trabalho, quero focar agora na seguinte questão: o que nos move então?

Certamente as razões são diversas, sendo que para muitos nem foi uma escolha (foi o possível ou um 'bico'), mas acredito que existem algumas que são comuns a todos os bons professores, mesmo que inconscientemente. Dentre elas, destaco duas: o desejo do encontro com o outro e a esperança de que a partir desse encontro muita coisa boa pode vir a acontecer...

Encontro com o outro é o encontro com a criança que está na sua frente ou com a que ela já foi um dia, no caso de aprendizes adolescentes ou adultos. Nesse encontro de olho no olho, de gestos afetuosos, e palavras que acolhem, orientam e dão limites sem limitar. É um encontro que vai além do físico, quando nos encontramos, por exemplo, com a criança que fomos. Afinal, nossas memórias nos permeiam, refletem em nossas ações, são nossas marcas, crenças primárias. Tomar consciência de nossa trajetória individual e coletiva possibilita encontros potentes entre sujeitos ativos e assim, podemos nos sentir pertencentes um ao outro, a um grupo maior, à humanidade, e principalmente, com a nossa própria humanidade - em construção.

Nesse processo, sentimos que cuidamos e somos cuidados, somos iguais em direitos e diferentes em maneiras de nos expressarmos, em nossas subjetividades. Do mesmo modo também somos semelhantes e únicos em como aprendemos, vivemos e sonhamos, e exatamente por isso, precisamos aprender a nos respeitar em nossas diferenças, porque elas nos engrandecem e nos qualificam como uma espécie diferenciada.

Esse tipo de encontro, quando acontece, é uma explosão de potência, porque nos faz perceber como podemos revisitar nossas memórias para ressignificá-las e algumas vezes até mesmo nos libertarmos - de amarras que fizeram conosco ou que nós mesmos nos prendemos. Uma vez alargados, os sujeitos envolvidos conseguem ampliar suas possibilidades, vivem outro tempo, outro espaço, outra relação.

Isso é educação. Só para isso e para tudo isso.

Com muito orgulho sou professora!!!! No momento orientadora educacional, mas sempre professora. Parabéns para mim e para meus colegas. "Viva eu, viva tu, viva o Chico Barrigudo!!!" (postagem homônima que escrevi no ano passado). Realmente essa escolha que reafirmo todos os dias foi um divisor de águas em minha trajetória. Nessa data especial, minha colega Glaucia Affonso escreveu um agradecimento especial que também compartilho aos meus alunos e alunas: "Hoje, como é dia dos professores, quero agradecer aos alunos pela possibilidade que eles me dão de reinventar a mim mesma".

Um privilégio.

Voltando à questão do Mateus, as origens dessas duas datas não têm ligação, mas como acredito no famoso "nada é por acaso", e principalmente, que a todo momento ressignificamos nossas vivências e escolhas, agora, mais do que nunca, para mim, o fato do dia das crianças e do dia dos professores serem tão pertinho um do outro é para nos lembrar de que um não vive sem o outro (não os dias, mas os sujeitos em questão!).

"Nascemos humanos, mas isso não basta: temos também de chegar a sê-lo". Fernando Savater

Lembrando que nosso processo de humanização apenas acontece em interação.

"Os homens se educam em comunhão". Paulo Freire

Assim, encontro entre professor(a) e criança é encontro entre gerações, entre o passado e o futuro, entre o que já foi e o que virá a ser, entre quem ensina e quem aprende, nem sempre numa direção única, entre quem fala e quem escuta (também não numa direção única), entre quem sabe mais sobre algumas coisas, mas não sobre tudo e quem sabe menos sobre tudo, mas tem seu olhar único sobre o que sabe. Encontro do velho com o novo, do que foi bacana e precisa ser preservado e do que foi ruim e precisa ser melhorado. Encontros que só acontecem entre quem está disponível para se enxergar, enxergar o outro, a relação, o ambiente, e todo um contexto, e assim se reconstruir, enfrentando todas as delícias e desafios que esse processo nos suscita.

Em cada um desses encontros na escola, que são diários e constantes, vamos nos lembrando também que precisamos nos cuidar, nos ajudar, nos respeitar e, claro, comemorar a vida em movimento. A nossa vida viva, com suas delícias e desafios.

“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais”. Rubem Alves

Lembrei-me de um dia em que Mateus chegou muito feliz da escola me contando que ensinou uma mariposa a voar. "Ah é?", lhe perguntei. "Mãe, ela saiu do casulo, ficou lá parada, sem se mexer e eu disse para ela: "Abre as asas e voa... Voa assim mariposa" (e fez gestos correspondentes com seus braços). Já completamente encantada com aquele relato, em meu pequeno ter experimentado um encontro com o outro (a natureza, no caso), em seguida ele me questionou: "Mãe, por que as professoras não ensinam a gente a voar?"

Ainda emocionada com tanta lindeza, respondi a ele: "Meu querido, você já voa... E voa longe". E depois pensei (e sigo com esse pensamento): "desejo que você, suas irmãs e todas as crianças, em suas trajetórias escolares, consigam sempre encontrar professores e professoras que reconheçam esse enorme poder que todos vocês têm". Professore(as) assim são porretas, fazem a diferença na nossa vida, e merecem hoje celebrar o dia de seu ofício. Parabéns a todos nós!!!

"Pois ser mestre é isso: ensinar a felicidade."
"Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido."
"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas."
"Os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam serem especialistas em amor: Intérpretes de sonhos." Rubem Alves

domingo, 12 de outubro de 2014

Dia das crianças 2014

Porque hoje é mais um dia como todo dia... Pelo menos aqui em casa, dia da criança é todo dia... de todo modo, hoje em especial, a gente aproveita para fazer um balanço geral e para fazer uma farrinha boa...

Dia de comemorar a existência das crianças: as de hoje, as de ontem, que fomos nós mesmos, e as que ainda vão chegar. No caso dos nossos filhos, eles são as crianças do nosso presente (aliás, o melhor presente de todos!), e de certa maneira também representam o que fomos e o que queremos vir a ser. São nosso elo com nossa própria história, com as pessoas, com o mundo.

Diariamente, como pais, nos deparamos com lembranças e fazemos escolhas que revelam essas experiências. Até mesmo o valor que damos para o dia de hoje, é resultado também disso. Assim, para alguns, pode ser encarado de várias maneiras, algumas complementares como, por exemplo, sendo um dia como outro qualquer, o dia de ganhar presente, de se mostrar presente, de ficar junto de pessoas queridas, de fazer alguma coisa diferente, de se fazer uma festa ou ainda de ser vivido com espontaneidade como outro dia qualquer. 

No meu caso, minhas memórias de infância me revelam que vivia esse dia numa medida bem saudável como um dia especial ao mesmo tempo corriqueiro, porque não me recordo especificamente de um presente ou passeio nesse dia. Era mais um dia gostoso, dentre tantos outros, na minha vida e na de meus irmãos.

Que assim seja para meu trio de pequenos bagunceiros e para todas as crianças desse mundão afora. Mais um dia vivido com respeito e amor!!!

Para aquelas que infelizmente não vivem essa situação, desejo e na medida do possível faço acontecer em minhas ações como cidadã, mãe e educadora que a infância possa ser encarada pelos governantes como algo prioritário em seus planos de gestão - pasmem! NENHUM candidato à presidência, no último debate para o primeiro turno das eleições falou em INFÂNCIA! Mas se eles não falam a gente grita e exige que cada criança tenha direito a viver essa fase de um jeito amoroso, cuidado, respeitado e potencializado.

Além do mais, que cada vez mais a gente consiga se surpreender com suas potências - não para realizar com sucesso algum jogo no computador, mas para ver e lidar com as coisas do mundo. Aí está a grande potência das crianças: essa maneira delas encararem a vida, de se relacionarem com as pessoas e com a natureza, enfim, interagirem dentro de uma cultura que é própria delas. Em todos os agrupamentos humanos, de todas as épocas e partes do mundo, vemos crianças se relacionando numa linguagem única, com repertório de brincadeiras que envolvem pesquisas semelhantes e ao mesmo tempo originais, porque afinal, estamos falando de nossa espécie, de nossa humanidade. Talvez quando a gente se enxergar desse jeito, com mais semelhanças do que diferenças - a gente possa construir outro modelo de sociedade.

Nesse sentido, as crianças de nossa contemporaneidade também nos ensinam constantemente que não existe um só jeito de entender e fazer a vida - existe sempre muitas possibilidades, e elas, com suas almas perguntadeiras exploram com toda inteireza que lhe são peculiares as suas subjetividades para interagir diante das questões cotidianas. Elas são livres e devem poder viver plenamente essa infância, contando nesse processo com o acompanhamento de adultos que não "boicotem" seus desenvolvimentos (já falei muito disso em outras postagens), mas ao contrário, a acolham, a estimulem, respeitam e aprendem com elas como, por exemplo, que esse cuidado que elas pedem de nós quando pequenas pode continuar pela vida inteira, não só para com elas (de uma maneira adequada a cada faixa etária, claro), mas para com todos nós, pois cada vemos mais tenho certeza de que fazemos parte de uma grande comunidade, e temos de nos cuidar - urgentemente, pelo bem de nossa espécie. E aqui não estou falando apenas em sobrevivência, mas em qualidade de vivência.

Ontem, hoje e sempre: Feliz dia das crianças!!!

"Quando eu crescer eu vou ficar criança". Manoel de Barros




domingo, 5 de outubro de 2014

Vamos votar?

Sim... Dá preguiça sair de casa em pleno domingão friozinho, só para votar. Mas é preciso!!!

Não podemos nos esquecer de que a conquista do voto direto foi uma luta de muitas pessoas para que hoje conseguíssemos ter esse direito: escolher livremente e de maneira democrática nossos representantes. Com 3 anos, por exemplo, não pude fazer o que Mateus está fazendo nesse momento, e junto de meu pai, acompanha-lo numa votação.

Luiz: "Mateus, vamos votar comigo?"
Mateus: "O que é votar?"
Luiz: "A gente vota para escolher quem vai governar o Brasil".
Mateus: "Mas eu governo".
(risos)
Luiz: "Você está ainda aprendendo a governar a sua vida".
Mateus: "Então eu voto em você!"

Demais de fofo.................. E eu voto nele, nelas!!! Pois como diz Lydia Hortelio, no documentário "Tarja branca": "Eu tô pela revolução que falta que é a revolução das crianças!"

Ao fazer essa declaração a Luiz Mateus captou a verdadeira essência do voto: votar é um ato de amor. Amor a um lugar, ao nosso grupo, à nossa história, a um modo de viver, ser e de concretizar sonhos e projetos coletivos. Por isso não votamos em qualquer pessoa, votamos em quem confiamos que representará nossas ideologias, nossas escolhas ou pelo menos se esforçará para tal. Essa é a beleza da democracia: cada um se expressar livremente (e de maneira respeitosa), sentindo toda a potência que carrega. Mateus, menino crescido numa recente democracia, já percebe a força de sua voz ao sentir que governa o país. Que lindeza!

Infelizmente, não tive a oportunidade de experimentar essa vivência e reflexão sob a perspectiva única e preciosa de minha primeira infância, e sendo assim eu e as pessoas de minha geração (e as anteriores), certamente deixamos de fazer aprendizagens importantes sobre a nossa potência, principalmente quando nos mobilizamos coletivamente. Ao contrário, essa época restritiva e violenta da ditadura militar, deixou fortes marcas negativas em mim, em nós, em nosso país.

Muitos ranços autoritários ainda permanecem em nossas crenças e ações, exigindo de cada um de nós um grande esforço pessoal e coletivo para os superarmos em direção à efetiva construção de uma sociedade justa e plena - isso sem mencionar outros tipos de ranços, muitos heranças de nossa colonização exploratória por uma elite branca, machista e metida a europeia. Mas ainda assim, seguimos caminhando... Cada um dentro de suas possibilidades de compreensão para o momento.

Alguns de nós, por exemplo, seguem com uma tolerância maior frente à diversidade e com uma leitura mais afinada sobre o nosso processo histórico buscando transformações reais em nosso sistema, outros, mais acomodados, anulam a própria voz ou viram "resmungões" cegos, seja de quem está no governo ou de quem está na oposição , outros (socorro!) querendo zoar nas eleições, votam em uns tipos esquisitos, sem propósito algum, e ainda outros (socorro de novo!!!) querem voltar ao tempo da ditadura, às velhas práticas tenebrosas de direita.

Realmente o exercício democrático é um constante desafio da vida em comunidade, mas não tem jeito... É apenas nessa nossa recente experimentação democrática que vamos poder, seja errando ou acertando, reconhecer o tipo de sociedade que somos e aprender, JUNTOS, sobre o tipo de sociedade que queremos nos tornar.

Agora é hora de Mateus votar e comemorar com a mamãe, pois ainda que meus candidatos não ganhem, de todo modo eu já estou ganhando em ter a chance de poder me manifestar livremente sobre os rumos de meu país. E, claro, poder manifestar-me positivamente ou negativamente sobre as futuras ações dos eleitos.

PS1: Mateus não quis ir votar comigo para brincar, achei um argumento muito justo!!!rsrsrs

PS2: Continuo "totalmente à deriva" como disse numa postagem homônima, e fica a dica, a leitura das reflexões de Leonardo Sakamoto - anima ver gente bacana pensando de um jeito amplo sem tanto ódio cego e muito desejo em entender o que se passa, em busca de alternativas a tantos movimentos reacionários:
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Lembranças que servem de lição: marcas do futebol

Assim que conheci Luiz, soube de sua grande paixão por jogar futebol, e não demorou muito para que eu percebesse os efeitos que esse esporte causava nele: contusões, ralados, pés quebrados. No início de namoro, era aquela preocupação em demasia seguida de uma sensação gostosa de poder cuidar do amado e coisa e tal. Com o passar do tempo passei a me confrontar com situações conflituosas como o cancelamento de eventos sociais por conta de Luiz não estar em condições de participar. Na época brincava com os amigos dele: "Poxa vida, entrego o rapaz inteirinho, cheirosinho e vocês o devolvem todo estrupiado!!!" e fazia pressão para que ele se cuidasse ou ao menos "aguentasse a dor sem reclamar". Enfim, minha pressão foi tão grande que certa vez combinamos de ir a um show na Virada Cultural e mesmo com braço machucado o Lu foi... quietinho, quietinho, só pra me agradar e não escutar...rs. No dia seguinte, descobrimos que ele havia quebrado o braço!!! Fiquei muito, muito mexida com isso e nunca mais reclamei e aceitei, afinal, era sua paixão, fazia parte dele. Lembro-me que mesmo machucado era com alegria e orgulho que ele contava do lance que havia se envolvido em nome de seu time seja impedindo o gol do adversário ou fazendo o gol da vitória.

Pois meu filho, com apenas 3 anos, vem trilhando um caminho parecido. Assim como o pai, ganhou mais uma história para contar: jogando futebol, Mateus quebrou o pé! E como sempre, ele está bem, lidando tranquilamente com esse empecilho, e claro, contando os dias para voltar a bater bola.

Fico aqui pensando que depois de tantas vivências, algumas coisas a gente precisa aprender nessa vida, e isso eu aprendi: crianças (de 3, 30 ou 60 anos) são assim mesmo... estão sempre dispostas a brincar, a explorar e a se divertir, e é desse jeito que a vida tem de ser. Por isso, sigo na torcida para que meus dois meninos moleques voltem logo a jogar o futebol do jeito que eles gostam (e precisam), mesmo que depois acabem ganhando novas marcas no corpo. Faz parte: marcas no corpo, marcas na alma. E principalmente, sigo com a minha fé de sempre. Fé na potência desse tipo de vivência intensa.

Para quem quer pensar um pouquinho mais a respeito, segue um link de uma reflexão importantíssima feita por Contardo Calligaris "Crianças protegidas e inseguras", na Folha de São Paulo.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2014/09/1517396-criancas-protegidas-e-inseguras.shtml

domingo, 21 de setembro de 2014

Mariana Cintra: seja bem vinda!!!

Com muita, mas muita alegria mesmo anuncio a chegada de mais uma princesa a esse mundo: a Mariana, filha de minha amada amiga Milena, do Tito, irmã da Isabella e parte de uma família queridíssima. Desejo que a chegada de mais essa "peixinha" no mar de suas vidas traga muita coisa boa!!!

Hoje, ao ler o primeiro texto de Rubem Alves  "Laudate Pueri" do livro "A grande arte de ser feliz" (recomendo!) pensei muito nesse acontecimento. Neste, meu grande mestre escreve para mais uma neta que acaba de nascer. Numa verdadeira viagem ao universo e às suas memórias ele comemora essa chegada tratando de várias questões da sua vida, e inevitavelmente das nossas também, uma vez que como sempre, ele fala do que é essencialmente humano, do que nos une e nos diferencia como, por exemplo, a relação com a vida, com as pessoas, as brincadeiras, a fé.

Para mim, pensar em Milena é pensar em Deus. Que Deus existe, que Deus é vida, é alegria. Minha amiga de fé que faz tão bem a todos que a rodeiam e que tanto fez parte de minhas inúmeras reflexões a respeito como de muitas outras vivências. Ela, que para disseminar a fé foi até o Peru, onde conheceu seu marido e onde atualmente vive com sua família. Sinto uma saudade que corresponde literalmente à distância que nos separa fisicamente, mas que obviamente não é suficiente para acabar com os verdadeiros laços afetivos.

Dois dias antes de Mariana nascer, por exemplo, conseguimos trocar algumas palavras, e pude tranquilizar minha amiga que estava um pouco aflita por desejar um parto normal, mas vinha recebendo constantes negativas do médico. Apesar de ser muito a favor do primeiro, naquele momento, senti que cabia acalmá-la para que ela conseguisse focar na chegada da filhota e pudesse recebê-la com todo amor que ela tem no peito - e não é pouco. E claro, rezar muito e esperar pelo melhor. E foi o que aconteceu: Mariana nasceu bem, e esse é o resultado mais importante para um parto ser considerado bem sucedido ou pelo menos o melhor possível, em cada contexto.

Para você, minha querida amiga dos meus sonhos, paras suas pequenas e sua família segue o texto que mencionei, e assim mais uma vez, faço as palavras de Rubem Alves para a chegada de sua neta Ana Carolina as minhas para a chegada de sua pequena Mariana. Com todo meu respeito e admiração.


Laudate Pueri - Rubem Alves


"Cada um louva como pode. Os magos, ricos, trouxeram presentes caros, preparados por artistas e comprados em lojas de cristal; os pastores, pobres, trouxeram nas mãos coisas que eles mesmos haviam colhido: o brilho das estrelas nas noites tranqüilas, a música das flautas na solidão das colinas; o cheiro do capim molhado de orvalho; as vacas e os jumentos, sem nada poder colher ou comprar, louvaram a criança com seus olhares mansos e, musicalmente, binariamente, com o balanço do rabo.

Eu também louvo do jeito como sei e posso: são cinco horas da manhã. A lua, um 'D' brilhante, faz tranquilamente o seu serviço de luz do meio do céu. Penso em você, que ainda não vi e nem pensa em mim, por não saber que eu existo. Me pergunto sobre o louvor que sei. Música, é claro. Não existe nada mais profundo. A alma, nos seus lugares onde as vozes perturbadas dos homens não atingem, onde tudo é silêncio, lá não há palavras. Lá só existe música. Os físicos de hoje, quanto mais sabidos mais tolos ficam. Esqueceram-se da sabedoria dos antigos. Dizem que no início de todas as coisas está a energia. Agora eu lhe pergunto, a você que nunca foi a nenhuma escola: o que é que vem primeiro - a música ou a instrumento? Qualquer tolo sabem que a música veio primeiro. Primeiro os homens ouviram a música com os ouvidos da alma. E tão fascinados ficaram que trataram de inventar instrumentos para que também os ouvidos do corpo a pudessem ouvir. Da música nasce a matéria. Os físicos antigos sabiam disto. Olhavam para os céus estrelados e ouviam a silenciosa música das esferas: cada astro era um globo de cristal, instrumento de uma orquestra na qual Deus tocava sua música. O evangelista escreveu: "No princípio era o Verbo". Mas ele, distraído, se esqueceu de dizer que esse Verbo eram as palavras de uma canção. Ele prestou só atenção na letra. Caso contrário teria escrito: 'No princípio era a Música'.

Uma vez que, com a sua chegada, o universo se inicia de novo, achei que seria próprio combinar o escuro da noite, o brilho da lua, a minha abençoada solidão de madrugada com a música, para assim louvar você. Não quero lhe oferecer só a música que existe nos vãos das minhas palavras. Quero lhe oferecer música pura. E foi assim que, no meio dos meus CDs procurei e achei: Laudate pueri - louvai, crianças - George Friedrich Handel, Dietrich Buxtehude, Antonio Vivaldi. E é isso que ouço enquanto escrevo.

Prestando bem atenção você perceberá que seu nome é música - mínima música. Basta repetir alto, Ana Carolina, Ana Carolina, Ana Carolina - menina bailarina, que dança em câmera lenta, em passos binários - ou será o movimento das asas de uma gaivota, binários também - talvez não haja diferença - o que todos os bailarinos desejam é voar como pássaros, por isso saltam tão alto, suplicam aos deuses o milagre de transformar sua dança em voo - desejam levitar, flutuar no ar.

Ritmo binário, tum-tum, tum-tum, tum-tum, assim bate o coração da mãe, a que seus ouvidos estiveram encostados por nove meses, e de tanto ouvi-lo ele ficou gravado no seu corpinho, que agora sabe que quando esse ritmo é ouvido o universo está em ordem. Tum-tum, tum-tum, tum-tum, não há o que temer, pode dormir. Assim batem as canções de ninar, assim balançam berços, assim batem as mãos no bumbum do nenezinho. Todos querem imitar o coração materno.

O que vou lhe dizer é um segredo, conversa entre avô e neta - os pais estão excluídos, não diga nada para eles. Aprenda: os adultos são uns tolos. É preciso que você não fique como eles. Claro que eles vão fazer de tudo para passar você na máquina xerox chamada escola. Resista. Se eu ainda estiver por perto eu a ajudarei. Palavra de avô. Pergunte à Mariana, sua priminha. Ela confirmará o que estou dizendo.

O Pequeno Príncipe... Até me esqueci de perguntar se você, em sua longa viagem até essa terra, não passou por ele. Como ele é? É fácil saber. Mora num minúsculo asteróide, cuida de uma rosa, tem um carneirinho, e morre de rir quando se lembra dos adultos... Ele percebeu aquilo que só nós, crianças, percebemos: que eles, os adultos, são todos doidos. Por exemplo - foi ele que me disse isto: se a gente disser para um adulto que a casa da gente é branca, de janelas vermelhas, flores no jardim e pássaros no telhado, eles ficam olhando, cara espantada, como se fôssemos de um outro mundo. Agora, se a gente disser que mora numa casa que custou R$ 300.000,00 eles sorriem e dizem: "Mas que linda casa!"

Os adultos pensam que o maior e o mais caro são o melhor. Pensam que a alegria e os deuses vêm empacotados em embrulhos grandes. Por exemplo: quando falam em Deus pensam logo numa coisa grande, muito grande, terrível, do tamanho do universo, e ficam falando em coisas que o pensamento não entende, como tempo de bilhões de anos e distancias de anos-luz. Não sabem que a alegria, o maravilhoso, o divino, estão ali pertinho, ao alcance da mão. Divina é uma gota de orvalho, uma amora roxa, uma cambalhota de tiziu, um raio de sol numa teia de aranha, a cor de uma joaninha, um bombom, uma bolinha de gude, um amigo, uma acertada de bilboquê: coisas pequenas, sem preço. Como você. Você é pequenininha e, ao preço de mercado, não deve valer muito. Mas você é mais maravilhosa que o universo inteiro. Porque você tem o poder de dar alegria e de sentir alegria. O universo não tem. Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos. Deus vê o mundo com olhos de criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar. Os grandes, doidões e perversos pensam que Deus é como eles, de olho malvado, que os espiona em todos os lugares, para castigar. Você sabe que não é assim.

Sua boquinha no seio da sua mãe: sem saber nada você já sabe a filosofia essencial. No seio se encontra o resumo de tudo o que vale a pena ser sabido. Primeiro, que é importante viver. O leite dá vida. Mas o seio não é só o lugar do leite. É o lugar de deleite. Prazer. A gente vive para ter prazer. No seio se aprende que viver é bom. Viver é divino. O mundo é um corpo cheio de seios, um espaço cheio de paraísos. Mas os seios e os paraísos só aparecem àqueles que têm os olhos de criança.

Essas coisas que estou lhe dizendo são coisas que só aprendi direito depois que fiquei avô. Eu sabia delas quando era menino. Quando virei adulto fiquei sério e esqueci. Depois de ficar velho, esqueci as coisas de adulto e reaprendi o que havia esquecido.

Sabe, Ana Carolina: estou fazendo uma casa para vocês, minhas netas: você, a Mariana e a Camila, e os outros que vierem. Lá estou colocando minhas coisas de criança, brinquedos. Somente eles julgo dignos de serem preservados. Lá estão piões, bolas de gude, pipas, caleidoscópios, quebra-cabeças, bonecas, marionetes, fantoches, um mundaréu de objetos inúteis que não servem para nada mas que têm o poder de fazer sonhar, livros de estórias, de poesia, de contos, livros de figura, jardinzinhos, fontes, plantas, bonsais, quadros, posters, CDs. Essa é a minha casa, a minha herança: uma casa de brinquedo para vocês. Agora, que você chegou, e sem ter visto o seu rosto, eu olho para os meus brinquedos, e imagino você brincando com eles. Isso me faz feliz. E, quem sabe, até mesmo seus pais e outros adultos tornados crianças se juntarão a nós. Beijão do seu avô, companheiro de brincadeiras."





Lina, Carol... Tudo uma só!!!

Durante a gestação de minhas meninas Mateus, pequenino na época, aos poucos, começou a vincular-se às irmãs passando creme na minha barriga, experimentando o berço delas e, claro, chamando-as pelos nomes. Como ensinamos, logo falou Bebel para Isabel (gostamos desse apelido), e por um bom tempo só falava esse nome, afinal, sabíamos da dificuldade dele entender que tinham dois bebês dentro de mim (confesso que até hoje nem eu compreendo muito bem como isso foi possível - verdadeiro milagre!) como também da facilidade dele pronunciar esse nome. Aliás, entre os bebês Bebel sempre ficou famosa primeiro, chegando a ser a primeira palavra falada por alguns deles.

Certa vez, os pais de uma colega de sua antiga escola compartilharam (rindo) seu desejo em elaborar um curta para o Festival do minuto em que um guarda pararia o carro deles, perguntando se o motorista havia bebido e ao que ele respondesse que não a câmera iria para a filha na cadeirinha do banco de trás dizendo (a única coisa que dizia na época): "Bebel" (rsrs). Adoro esse povo com humor!

Passado um tempo, quando Mateus começou a nomear Carolina passou a chamá-la espontaneamente de Lina, deixando-me completamente encantada e rendida a esse apelido carinhoso. Na época, algumas pessoas me perguntaram se podiam continuá-la chamando de Carol.

Carolina foi o primeiro nome escolhido por mim e por Luiz, durante minha primeira gravidez, quando ainda não sabíamos o sexo de nosso bebê. Nome doce e forte ao mesmo tempo, de mulheres de todos os tipos que já conhecemos na vida, todas muito marcantes. Além disso, são protagonistas de duas músicas que adoro, de Chico e de seu Jorge. "Carol, Carol, Carol, Carol...", como este último canta é um apelido que adoro tanto que certamente também pesou nessa escolha.

De maneira geral, sempre fui conhecida como Ju assim como toda Juliana (muitas na época) e Julia (poucas, ao contrário de hoje em dia, quando as crianças ao ouvirem meu apelido logo acreditam que me chamam Julia). Mas lembro-me de algumas pessoas, todas muito saudosas, que me chamavam de um jeito único como meu vô que quando estava de bom humor logo dizia com seu jeitinho fofo e cativante:"Juju", de  meu tio Ivo que dizia: "Juzinha" e do porteiro de meu ballet, o Juarez que me chamava de "Jurinha". Certamente este último, em especial, também devia chamar outras Julianas do mesmo jeito, mas isso nunca importou, porque eu me sentia mesmo muito especial em ser recebida com essa demonstração de afeto genuíno e espontâneo. O inverso não dá certo...

Mais velha, lembro de uma viagem que fiz à Bahia, onde todos me chamavam de "Juli", jeito como eles abreviam esse nome, e assim o que era comum aos olhos dele, aos meus se tornou uma carinhosa marca - ainda por cima, fui para lá na época que uma música de axé "a Juliana não quer sambar... Samba juliana, samba..." estava no auge. Até em cima do palco me colocaram para dançar com esse grupo. Memórias de vários sabores me vêm à cabeça... De todo modo, voltei a São Paulo decidida que me chamassem dessa maneira, e claro que não deu certo. Tirando nosso primeiro nome que é uma imposição, e que mesmo assim a gente pode não gostar e mudar. Lembro uma vez que encontrei numa viagem um colega da escola antiga e, emocionada, gritei o nome dele que logo ficou constrangido, pediu para eu falar baixo, porque havia trocado de nome. E olha que ele nem era da turma dos nomes esdrúxulos, era apenas um nome pouco sonoro e convencional... O contrário também pode acontecer como, por exemplo, quando quis manter meu nome de solteira mesmo casando convictamente que não quero me separar de Luiz. Mas não fazia o menor sentido eu ter seu nome, identidade zero, e sem julgamento algum para quem muda, apenas o bacana hoje em dia é sabermos que nós, mulheres, não precisamos forçosamente fazê-lo assim como os homens devem saber que durante a união civil podem assumir o sobrenome das esposas. Todas conquistas de direitos.

De todo modo, não adiantou naquela época assim como não adiantaria hoje pedir para meus conhecidos me chamarem de um jeito que não veio como um movimento espontâneo. Aos poucos, me dei conta que entre tantas "Jus", eu era conhecida como a Ju Parreira, e isso me acalmou tanto. No fundo, trata-se sempre de nossa busca eterna de identidade em processos que se encontram e se desencontram de similaridades e diferenças.

Lembro-me da primeira vez que tive que escolher oficialmente uma assinatura para a emissão do RG, e como nunca consegui fazer umas diferentes com padrão de regularidade (aqueles traços malucos), escrevi meu nome por extenso como minha mãe. Tempos depois, quando abri minha conta bancária aos 16 anos, omiti o sobrenome do meio, por já me dar conta de que este último havia tomado uma força maior na minha história (meu pai é chamado pelo sobrenome até mesmo em casa, e este último me diferenciava das outras "Jus"). Mas percebi que minha mãe ficou mexida dizendo que se meu vô soubesse ficaria triste. Entendi sua dor, de mulher, na hora. Mas assim como não conseguia forçar as pessoas a me chamarem de Juli naquela altura não conseguiria que me chamassem de Ju de Mattos. Tempos depois, vi a mesma dor nos olhos de minha sogra ao se dar conta de que seu nome, uma vez divorciada, não iria para seus netos. Eu e Luiz combinamos de cada um escolher apenas um de nossos sobrenomes para colocar nos nomes dos filhos para evitar nomes demasiadamente extensos. Não sabíamos se era o ideal, mas foi o critério que usamos. E claro, que não muito tempo depois entendi o que essas mulheres sentiram quando Mateus passou a ter xará na sala e passou a ser chamado de Mateus Penna. Sensação de exclusão que passou no instante em que me lembrei dessa história toda. Sei que certamente estou deixando marcas fortes em meu filho que vão além de formalidades, por um tempo, por exemplo ele chamava o avô de "vô Parreira Penna" como é para ele: duas coisas indissociáveis.

Como mãe, sei que posso escolher os nomes de meus filhos, mas não como vão chamá-los, porque trata-se de algo diretamente relacionado aos seus jeitos (falando aqui dos apelidos que nascem dessa forma como meu irmão que chama de Chefia - como não se render?) e às construções de suas relações, constituindo-se como parte essencial de suas histórias. Assim, chamo Carolina de Lina, porque além da sonoridade deliciosa, foi como meu menino nomeou pela primeira vez a irmã, bem ao seu jeito e com todo seu afeto. Já Luiz, por exemplo, a chama de Carol.

Quando ela entrou na escola a professora perguntou como queria que a chamassem, fiquei em dúvida até porque também a chamo de muitos outros jeitos (Carolinda, Linoca Tibiriroca, Fofucha). Acabamos combinando Lina. "Caoina" foi uma das primeiras palavras de Bebel para chamar a irmã. Lina levou um tempo para nomear a si própria, desafios de todos bebês potencializados por ter uma irmã gêmea. No início, falava de si como Bebel, depois Menina, EU - todas conquistas ao seu tempo! - e ontem falou assim para me contar que estava colocando suco para mim: "A Caol põe uco, tá bom mamãe?". Silêncio de espanto e reelaboração das ideias.

Depois pensei e disse baixinho a ela: "Tá bom, minha filha!". E ainda pensei: "Você tá mesmo danada, cada dia mais se afirmando nesse mundo, se colocando como sujeito ativo de todas as construções que permeiam nossas relações de afeto. Orgulho da mãe, minha pequena Lina, minha pequena Carol, minha pequena tudo isso e muito mais! Pelo jeito você também terá muitas narrativas para contar sobre como construiu seu lugar no mundo, e eu sempre vou querer te ouvir".


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sofia Tavares: seja bem vinda!!!

Desde o Grupo 1 Mateus tem um grande amigo que a cada dia vira mais e mais um amigo especial, o Arthur. Os dois dividem grandes paixões como futebol e super-heróis ,e juntos vêm construindo uma bonita história de amizade, com suas delícias e desafios como toda relação possui, e acima de tudo, muito companheirismo.

Agora, esses dois pequenos grandes amigos passaram a ter mais uma coisa em comum: o dia do nascimento de suas irmãs. Explico: há dois anos atrás, Carolina e Isabel, irmãs de meu menino nasceram no dia 7 de setembro, como escrevi na postagem anterior, e Sofia, irmã do Arthur, nasceu ontem, no mesmo dia!!!

Viva, viva, viva!!! Parabéns ao Arthur que ganhou uma irmã, uma amiga, à sua querida mãe Isabela e ao seu pai Fernando. Desejo tudo de maravilhoso a essa família! Contem conosco para o que precisarem.

Quando mencionei ao Mateus essa coincidência, obviamente, ele não compreendeu plenamente sobre o que estava me referindo, apenas - pela minha alegria - que tratava-se de coisa boa, assim como imagino que nesse momento Arthur não tem a dimensão total do impacto da chegada da irmã em sua vida. Contudo, esses pequenos são sensíveis e sabidos, e com o tempo e a vivência, cada vez mais eles conseguirão ampliar seus parâmetros sobre o que significa ter marcas em comum assim como construir verdadeiras relações de afetos entre amigos e irmãos. Algo impagável, que eles já têm tido o privilégio de experimentar!!! Fico assim na torcida para que a vida reserve mais e mais surpresas boas para todos esses pequenos, eles merecem, principalmente a pequena Sofia!!!

Beijão

domingo, 7 de setembro de 2014

2 anos de Lina e Bebel!!!

Extremamente emocionada... Minhas meninas completam hoje 2 anos de nascimento!!!

Estou bem sensível desde que comecei a organizar umas fotos para a festinha delas na escola que revelem esse crescimento, porque é mesmo muito, muito emocionante acompanhar cada conquista e relembrar cada momento vivido. É verdade que tomei um susto ao saber que estava grávida de gêmeas, mas logo me dei conta da sorte grande que havia tirado ao gerar dois bebês de uma vez só. Nesse processo fui me preparando, contando com o apoio das pessoas ao meu redor.


Hoje, sinto uma saudade gigante do tamanho de minha barriga, de carregá-las, das duas me esmagarem, de nós 3 juntas e de Mateus nos acariciando. Ainda bem que podemos continuar nos apertando mesmo que estejam fora dela, e mais maiores.


 



Saudade do momento do parto, de ter registrado melhor na minha cabeça a carinha de cada uma quando chegaram. Vontade de congelar aquela cena. Mas foi tudo tão rápido, Luiz perdeu o nascimento da Carolina, meu médico também, e eu, em meio a choros emocionados por um parto intenso e natural de uma menina linda, estava ainda concentrada para que a chegada de Isabel também fosse intensa e perfeita. Em compensação uma das únicas cenas que tenho guardada em minha memória para sempre foi a de no momento de dar à luz a Isabel meu olhar cruzar com o de Lina que estava no colo de Luiz. Nesse momento, me entreguei completamente à emoção e me senti a mulher mais realizada. Desde então meu sentimento só cresce, e tenho cada vez mais orgulho por ter colocado no mundo duas mulheres tão "porretas"!!!

 
 
 
 
 Saudade de amamentar, de vivenciar esse momento de puro amor com meus três filhotes. Mas o maravilhoso é que como o amor cresce, cenas desse tipo também são vividas de maneira ampliada.
 
 
 

 
Saudade, saudade, saudade.

Apesar de meu desejo de reviver alguns momentos para "fazer melhor"' ou aproveitar ainda mais, não vivo presa no passado. Pelo contrário, tento me perdoar pelas falhas causadas pelas limitações inevitáveis para assim aproveitar o presente que ganhei de minhas escolhas anteriores.

Sem dúvida alguma, meu melhor presente nesse tempo presente são meus três filhos. E hoje é o dia delas, das minhas meninas, minhas flores, minhas passarinhas, minhas princesas, minhas molecas. Elas sempre foram deliciosas e a cada dia me surpreendem, me encantam, me deixam apaixonadas... tanto, tanto.  São simplesmente deliciosas e todos os dias me presenteiam com fortes abraços, gestos intensos, carinhos aos montes e cada vez mais, bate-papos elaborados.




É verdade que a vida ficou mais corrida desde a chegada das pequenas, mas verdade maior ainda é que a vida ficou muito, muito mais animada e principalmente, "encaixada". Atrapalharam em nada, como alguns acham, minhas virginianas chegaram para colocar ordem e maior sentido na minha vida. Sem elas, não há mais vida. A vida, a minha vida, só é possível assim... Não há outro jeito de eu existir plenamente. E dou minha vida para que a delas também seja plena. Sempre serei grata por elas terem me escolhido como mãe, e por me ensinarem tanta coisa sobre cumplicidade e autenticidade.

Minhas meninas são cúmplices como unha e carne. Desde pequeninhas, quando colocadas junta à outra, logo se tocavam e se acalmavam. Cresceram rindo e fazendo careta uma para a outra. Como uma ciranda da vida, circulavam engatinhando pelo espaço em direções distintas, depois se encontravam, se cheiravam e se tocavam, balbuciavam uma à outra e logo retornavam à exploração individual. Também brigavam, disputas por objetos eram comuns. Sempre tentamos não interferir muito e elas foram aprendendo a resolver suas questões sozinhas, sempre que possível. Aprenderam muito com o irmão, a inclui-lo, a exclui-lo, a imitá-lo. Ele também aprendeu com ela, que os tempos e as possibilidades de cada um são diferentes, que precisa marcar posição como dar espaço ao outro, dependendo do contexto e que uma comunicação de afeto se faz por meio de inúmeras linguagens. Desse modo, este tem sido o clima que se instaurou aqui em casa, de cumplicidade de irmãos que brincam e brigam juntos, que disputam espaço tendo como referência a ética dos adultos, e que aprontam juntos para escapar dessa mesma ética e acima de tudo estão sempre juntos, em relação. Somos seres coletivos, sobrevivemos e aprendemos dessa maneira solidária de troca. Que baita oportunidade esses meus pequenos tem tido!



Minhas meninas também me ensinaram que quando se tem este grau enorme de envolvimento não é necessário um brinco para diferenciá-las, o que é de uma não é da outra, somos seres únicos. Dessa forma nem é possível nos referirmos a elas o tempo todo no plural. Carolina, Lina, Linoca Tibiriroca, Carolinda e Carol é uma, e Isabel, Bebel Saracutel, Bel, Belzinha, Isabel La, e outra. Ou vice-versa. E que temos que preservá-la dessa tentativa das pessoas de as igualarem sem prestar atenção aos seus detalhes e expressões como de diferenciá-las como mais ou menos "quem é mais sapeca? quem é mais inteligente?". Uma vez que somos todos diferentes sempre haverá uma mais e outra menos para cada ponto, mas se já é complicado, injusto e muitas vezes improdutivo fazer isso com uma gama maior de pessoas imagine com apenas duas... tão novinhas e que estão se experimentando. Tão lindo ver o que é só de uma, e o que é só da outra, e mais lindo ainda quando elas trocam de jeitinhos ou ampliam suas expressões. Fico simplesmente encantada em acompanhar esse processo das duas e de cada uma, e principalmente em ter a chance de construir laços afetivos entre todos e com cada um.



Fios da vida que tem sendo tecidos por nós, com muito amor, e principalmente, gratidão pelo privilégio de gerar 3 filhos que amo de paixão e acompanha-los todos os dias em suas grandiosas experiências.


Carolina, minha filha doce e guerreira, sou completamente apaixonada por você. Meu bebê anjo que aprendeu a berrar para chamar pela mamãe quando eu estava atrapalhada. Até hoje minha menina risonha, da gargalhada deliciosa, quando decide por algo grita com toda força. Intensa, viva e cheia de energia, "chega chegando" em todas as situações, porque quer mesmo aproveitar tudo. Sabida, gostosa, fofa, minha menina que quer sempre estar junto de todo mundo, mas também sabe mergulhar numa experiência e esquecer-se do mundo ao redor assim como a mamãe. Você me faz um bem danado e sempre vou me esforçar para te ouvir sorrindo, porque quero aprender contigo e sei que vale à pena!


 


Isabel, minha denguinho sapeca, sou completamente apaixonada por você. Como não ser? Você é carinhosa, adora agarrar, apertar, abraçar, beijar tudo e todos ao seu redor, uma coisa de gostosa. Tenho tanto a aprender contigo. Sabida, sempre quer ajudar e antecipar as coisas que vão acontecer. Sempre me surpreende! Seja num gesto de afeto, seja numa ação independente de quem sabe que está nesse mundo para viver coisa boa e vai atrás, e persistente que é, não espera acontecer, parecendo tanto a mamãe nessas horas "metida" a fazer as coisas sozinha. Vive intensamente, cantando e dançando com leveza e delicadeza. Um charme só! Você me faz um bem danado e sempre vou me esforçar para te ver cantando, porque vale à pena!



Minhas meninas, vocês são filhas maravilhosas. Desejo a cada uma muita saúde e energia boa para viverem mais um monte de coisa boa. Amo cada uma de um jeito que vocês nem podem imaginar, só quando virarem mamães saberão... Enquanto isso o que é importante mesmo é as duas terem certeza de que podem contar comigo, sempre, para voos cada mais profundos e mais altos, ou do jeito que quiserem...

 
 
 
PS: Mateus, meu querido, foi você quem me tornou mãe, lembra? Todo meu amor e gratidão. Vamos hoje cuidar muito para que o dia das nossas meninas seja bem especial, e assim todos nós vamos nos divertir muito. Te amo demais para sempre.



 



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Nossa responsabilidade com os mais jovens

Na semana passada estava numa rua de comércio popular quando senti alguém mexendo na minha mochila. Olhei para trás e era um moleque, menino bonito de uns 17 anos no máximo, que em seguida tentou disfarçar dizendo: "O que foi?" e logo saiu andando, com olhos fixos em mim. Eu também fiquei com olhos fixos nele, num misto de susto pelo incidente, indignação por ver um jovem prestes a cometer uma bobagem e esperança de que ele pudesse perceber o mesmo que eu. Ainda tomada pela emoção do momento, quando me dei conta estava atrás do rapaz falando, num tom ponderado e firme: "Que coisa, heim? Tá certo pegar coisa dos outros? Um rapaz como você... Vai fazer alguma coisa bacana da sua vida. Quanto desperdício de energia!" O menino continuou se afastando, em companhia de seu parceiro, contudo, sem deixar de acompanhar minha movimentação até que com uma buzinada, eu e minha mãe percebemos que estávamos no meio da rua e quase fomos atropeladas por uma moto, e cada dupla seguiu por uma direção distinta.

Foi uma cena que mexeu comigo, porque além do susto, me vi na obrigação de intervir para com as atitudes daquele menino. Se isso vai fazer diferença diretamente na vida dele eu não sei, mas fico desejosa que sim, de que ele possa vir perceber que naquele dia perdeu a oportunidade de um furto, mas ganhou a oportunidade de experimentar outro jeito de viver. Afinal, acredito na potência de todo ser humano e principalmente do que aprendemos uns com os outros em nossa vida coletiva.

É verdade que às vezes é bem irritante quando as pessoas palpitam nas suas ações, principalmente quando ultrapassam uma linha tênue do respeito ao seu jeito, tempo e possibilidades distintos. Como mãe, isso acontece com frequência, já falei sobre isso aqui algumas vezes, a tal "chuva de palpites" desde que a gravidez é anunciada. Eu mesmo, confesso, vez ou outra deixo escapar uns palpites por aí. Perdão pessoal!

Contudo, talvez porque agora seja uma mãe um pouco mais segura a ponto de saber diferenciar os palpites que me complementam daqueles que não me acrescentam como também porque, com três filhos pequenos, a vida me ensina constantemente que preciso sim de ajuda, tenho cada vez mais lidado de um jeito tranquilo diante de dicas e críticas. E recebe-las de maneira mais aberta tem me feito um bem danado, me possibilitando outro ponto de vista sobre algumas coisas e assim me vejo totalmente agradecida e comovida frente aos inúmeros gestos de solidariedade que recebemos quando, por exemplo, chego à escola com meus filhotes e logo vem um monte de gente oferecer algum tipo de ajuda seja para dar as mãos para alguma criança ou pegar algum objeto que deixei cair no chão. Em geral, tenho aceitado, mas vez ou outra recuso, simplesmente por não ver necessidade e não querer incomodar, já que o quê aos olhos dos outros é uma cena tensa, andar com os três pela calçada, por exemplo, aos meus não é; trata-se da minha realidade, a minha vida. Aliás, se eu acreditar que não dou conta dessa tarefa sozinha, aí realmente terei um grande problema nas mãos. Sei dos limites de nossa dinâmica tanto que ainda não vou a um parque sozinha com eles, por exemplo, e quando necessário peço ajuda desesperadamente.

Mas agora, o que queria mesmo frisar é que tenho ficado cada vez mais confortável e encantada com os olhinhos atentos e cuidadosos das pessoas ao nosso redor acompanhando a movimentação de minha família. Às vezes, sem mesmo haver necessidade, tenho conseguido aceitar ajuda apenas pelo gesto carinhoso. Sensação de fazer parte, de ser cuidada, querida. Além do mais, quantas coisas meus filhos podem aprender com cenas como essas? E por fim, fico muito esperançosa de que aquele menino, do começo desse relato, tenha sentido o mesmo com o meu olhar de cuidado para com ele.

Segue o texto "Brincar de faz-de-conta", de Rosely Sayão, educadora e colunista da Folha de São Paulo que fala da nossa grande responsabilidade para com todas as crianças e jovens se estamos comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/2014/08/1495842-brincar-de-faz-de-conta.shtml